domingo, 27 de julho de 2014

Em Busca da Felicidade - parte 9

Como você se vê daqui cinco ou dez anos? Seria possível prever o futuro? Imagino que pessoas sábias consigam perceber nuances da realidade e intuitivamente conhecer eventos antecipadamente. O Espiritismo traz a possibilidade da influência de espíritos desencarnados que, sob essa condição, vislumbrariam melhor o que está por vir. Esse tema é abordado em A Gênese:

"2- Suponhamos um homem colocado sobre uma alta montanha e a vasta extensão da planície. Nesta situação, o espaço de uma légua será pouca coisa e ele poderá facilmente abarcar, de um só golpe de vista, todos os acidentes do terreno, desde o começo até o fim do caminho. O viajante que segue esse caminho pela primeira vez sabe que, caminhando, chegará ao fim: aí está uma simples previsão da consequência de uma caminhada; mas os acidentes do terreno, as subidas e as descidas, os rios a transpor, as matas a atravessar, os precipícios onde possa cair, os ladrões postados para roubá-lo, as casas hospitaleiras onde poderá repousar, tudo isto é independente de sua pessoa: é para ele o desconhecido, o futuro, porque sua visão não se estende além do pequeno círculo que o cerca." Teoria da Presciência, Capítulo VXI

Mais adiante, destaca-se que qualquer um pode fazer previsões e formar o seu próprio futuro:

"12- Os acontecimentos vulgares da vida privada são, o mais frequentemente, a consequência da maneira de agir de cada um: tal vencerá segundo as suas capacidades, sua habilidade, sua perseverança, sua prudência e sua energia, onde outro fracassará pela sua insuficiência; de sorte que se pode dizer que cada um é o artífice de seu próprio futuro, que nunca é submetido a uma cega fatalidade, independente de sua pessoa. Conhecendo-se o caráter do indivíduo, pode-se facilmente predizer-lhe a sorte que o espera no caminho em que se empenha."

Eu diria que "os acontecimentos vulgares da vida privada" formam a essência da felicidade. Porém, se pudéssemos prever o futuro com facilidade, não seríamos todos felizes?

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Há pouco mais de três anos, comprei um automóvel zero que hoje já passou dos 220mil km. Embora o motor ainda se mostre eficiente, a troca é inevitável. Em sua última revisão, ontem, fui abordado por um vendedor quando dava uma olhada nos exemplares do salão. "Doutor, vamos trocar de carro?!" Mordi a isca, ele ficou de me fazer uma proposta pelo meu carro amanhã. Paguei R$41mil, se oferecerem perto de 60% desse valor, fecho negócio.
Em 2011, tive que fazer uma previsão sobre as minhas necessidades e possibilidades para um novo financiamento. Deu tudo certo, o carro ainda permite minhas longas viagens e a última parcela foi no começo do ano. O mecânico comentou ontem que jamais vira esse modelo com tanta rodagem, sua conclusão foi de que as revisões periódicas permitiam sua longa vida útil. Meu avô já disse o mesmo algumas vezes.
Agora chegou o momento de fazer novas previsões. Pretendo ficar pelo menos quatro anos com a futura máquina, busco uma escolha acertada. Interessante que esse período que antecede a compra é bastante positivo pela expectativa decorrente das várias possibilidades do mercado. Dirigir é um prazer universal do homem, não sou diferente. Pressinto que boas emoções estão por vir, independente do caminho que escolherei.

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Quando minha avó adoeceu, o tio que morava na mesma cidade que ela me perguntou logo no começo da semana em que cheguei: ''Quando tempo você acha que a mãe tem?" No seu rosto, sem disfarce, a dor de quem também morria. Não quis responder: "É difícil fazer uma previsão..." Ele insistiu: "Acho que ela tem uns dois anos." Sua sogra também sofrera demência, mas durara vários anos; eu sabia que o nosso caso era mais grave: "Acho que um ano... Talvez, meses." Tive a sensação de o ter matado mais um pouco; no outro dia, ele se conformou: "Eu sei que ela não tem nem um ano."
No sábado, um tio que morava em uma cidade próxima me disse que pretendia almoçar ali no dia seguinte, eu lhe pedi que trouxesse toda a família. Já havia o plano de transferência para a próxima semana, poderia ser a última oportunidade deles a verem com vida. Nada disso eu expliquei, apenas pedi que trouxesse todos e ele entendeu. Meus dois primos, suas esposas, minha tia, a bisneta, todos estavam lá no domingo. Fora a última vez.
Na terça, dia da transferência noturna para Porto Alegre, esse tio me perguntou quanto tempo eu achava que ela tinha. Com otimismo e sinceridade, respondi de maneira reta: "Um mês." Queria estar errado, mas exatamente quatro semanas depois, na manhã de quarta, ela faleceu. Confesso que, em alguns momentos, eu cheguei a acreditar em uma sobrevida maior; imagino que seria impossível não me prender a alguma esperança, por menor que ela fosse.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Em Busca da Felicidade - parte 8

Na penúltima vez que fui cortar o cabelo, visualizei, estarrecido, um tufo branco na porção posterior esquerda do meu couro cabeludo. A cabelereira também notou e eu reagi dizendo que jamais conferiria novamente o seu corte. Mas claro que, na última vez, respondi prontamente "sim" ao ser perguntado se eu gostaria de olhar atrás. Eu queria apenas conferir o quanto aumentara a mancha, porém um milagre ocorreu: os fios voltaram ao tom escuro!
Uma pessoa próxima chegou a questionar se eu não o havia tingido. Ao analisar a ocorrência, observo que os fios brancos coincidiram com a época do adoecimento de minha avó, quando, em cinco semanas, devo ter envelhecido uns cinco anos. Nas semanas seguintes, os anos perdidos foram aparentemente devolvidos; imagino que a morte dela tenha me lembrado da importância de se constituir família, intensificando uma busca que felizmente tem se tornado um encontro.

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Neste mês, tive uma conversa com um amigo sobre outros dois amigos nossos, ambos irmãos. O mais velho se casou com uma mulher que já tinha dois filhos e teve mais dois após se formar, o mais novo (da nossa idade) se casou com uma mulher que já tinha uma filha e, após se formar, teve mais uma. Eu abertamente os defendo, dizendo com certa ironia que: "Eles estão certos, nós que estamos atrasados!" Desta vez, porém, meu amigo, sério, bateu de frente contra a minha provocação.
Disse que havia pensando muito sobre o assunto. "Olha o quanto o fulano envelheceu nos últimos anos..." Nossos amigos não teriam mais escolhas na vida, a única opção, agora, era trabalhar bastante; no entanto, a felicidade viria justamente da possibilidade de escolher entre vários caminhos. Ficando sério também, respondi que concordava com ele, por isso não tinha filhos e não os planejava ter agora; mas ressalvei que era questão de alguns anos, ele deveria vislumbrar o mesmo. 

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Na última sexta-feira, planejei uma viagem para minha cidade natal; constrangido em pedir folga, decidi cumprir o expediente e viajar em seguida. Escolhi jantar em São Joaquim em uma cafeteria/restaurante, o lugar estava cheio, mas queria o melhor sanduíche italiano que conheço. Fiz o pedido ao atendente e, alguns instantes depois, o dono veio até minha mesa, dizendo que sabia que havia um detalhe sobre o meu café, mas não lembrava qual. Surpreso com tamanha atenção, respondi: "É com o leite frio."
Cheguei em casa tarde da noite, tomei um banho e parti com minha irmã para a cidade vizinha onde ocorreria a apresentação do Dead Fish, que acompanhamos há 15 anos. Apesar do susto inicial, "cadê o Philippe?!", show catártico como sempre. Aproveitei para comprar o DVD em comemoração dos 20 anos, onde Rodrigo comenta entre uma música e outra, emocionado, apontando para alguém da platéia: "Meu irmão, você já arrumou um emprego bom, já está ganhando um bom salário... Isso é coisa de criança, os caras não falam que é coisa de criança? Então a gente vai morrer jovem, galera..."

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Em Busca da Felicidade - parte 7

Há uma década atrás, quando iniciei meus estudos sobre a obra de Allan Kardec, deparei-me com um interessante trecho de O Livro dos Espíritos:

"365 - Por que homens muito inteligentes, que evidenciam em si um Espírito superior, algumas vezes, ao mesmo tempo, são profundamente viciados?
(...) O Espírito progride através de uma insensível caminhada ascendente, mas o progresso não se realiza, simultaneamente, em todos os sentidos; em uma etapa ele pode avançar em ciência, em outra em moralidade." Livro II - Capítulo VII

Na época, minha conclusão foi de que, em vidas passadas, eu evoluíra principalmente em intelecto; nesta encarnação, então, eu deveria focar meus esforços na evolução moral. Há dez anos, essa tem sido uma de minhas buscas. Claro que, nessa "batalha espiritual", eu acumulo muitas derrotas e, frequentemente, questiono-me se estou, de fato, evoluindo. Talvez eu esteja no caminho certo, mas talvez ainda longe do objetivo final.

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Recentemente descobri que uma caloura minha está em missão humanitária em um campo de refugiados na África. Tive contato com ela nos últimos anos da faculdade, durante os plantões de pediatria no Hospital Universitário. Conversamos sobre religião e lembro dela comentar que seu pai lera o Alcorão motivado por uma curiosidade histórica; outra vez, ela comentou sobre a impressão que a minha apresentação do TCC tivera em alguns colegas da sua turma.
Apesar dela ser uma pessoa sincera e de fácil diálogo, eu tinha a falsa impressão de um certo distanciamento e frieza; não lembro de vê-la sorrindo, por exemplo, em contraste com uma foto recente que ela postara do continente africano. "(...) sou responsável pela enfermaria de desnutrição aguda de crianças até 5 anos de idade, trabalho de domingo a domingo 12 horas por dia e apesar de todos os perrengues (latrina, banho de caneca, comer arroz ou macarrão todo santo dia, dormir numa tenda minúscula, etc), estou muito feliz!"

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No último ano da graduação, tivemos uma palestra de uma médica argentina sobre o trabalho humanitário dos Médicos Sem Fronteiras. Ao final, abriu-se a discussão para tirar dúvidas e eu perguntei qual era o salário. A convidada reagiu imediatamente com uma risada, apontando seus braços para mim, como se dizendo: "Claro que alguém iria perguntar isso!" Ela respondeu que o trabalho era de natureza voluntária, havia apenas uma ajuda de custos que não passava dos mil dólares mensais.

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Alguns meses antes de me formar, fui analisar uma proposta profissional em uma cidade do interior do Rio Grande de Sul, onde um tio trabalhava. O prefeito, que era médico, ofereceu-me quarenta horas semanais em uma unidade básica mais quinze dias de sobreaviso no hospital municipal. Ao notar minha perplexidade pelo baixo salário, ele explicou que eu não deveria pensar no dinheiro, mas no aprendizado e na amizade que eu desenvolveria ali.
Outra possibilidade de emprego, em uma cidade próxima, era onde meu avós moravam; mas, depois da frustrante proposta do meu colega médico, sequer me interessei em ouvir o que outro prefeito tinha a oferecer. Fui iniciar meus trabalhos na bela Santa Catarina, onde a remuneração é melhor e a qualidade de vida me parece ser incomparável. Como bon vivant, desde cedo aprendi a escolher o caminho que parecia ser mais confortável para mim.

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Mas e a evolução moral? Se por um lado, busco valorizar meu trabalho e sequer cogito fazer algum voluntariado; por outro, procuro manter uma certa humildade material e eventualmente ajudo financeiramente meus familiares. Entre o mundo e a família, a escolha me é óbvia, fui educado assim. Na minha pré-adolescência, perguntei se meu pai doaria para instituições filantrópricas parte do prêmio caso ganhasse na loteria, ele respondeu que se preocuparia primeiro em ajudar seus familiares.
Há alguns meses, tive uma longa conversa com um primo mais novo que, universitário, saiu de casa há alguns anos. Imaginando uma situação de "austeridade", vivenciada na minha própria formação, ajudo-o sempre que possível. Ele contou que, na primeira vez que lhe dei dinheiro, ele cometou o erro de contar para sua mãe que, consequentemente, cortou a mesada daquele mês. Eu ri do ocorrido, para mim, isso não fazia diferença, eu os estava auxiliando e era isso que importava.
Ele lembrou que meu pai, provavelmente o mais bem-sucedido entre os irmãos, ajudara os seus pais na época em que moravam em Porto Alegre. Isso me encheu de orgulho. Uma das lembranças da minha infância foi de ver meus pais conversando sobre a necessidade de ajudar outro tio que, apesar de estudar em uma universidade pública, tinha gastos consideráveis com os materiais odontológicos. Assim, suponho que, se meu objetivo era evoluir em moralidade, escolhi bem o ambiente para encarnar.

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O Espiritismo coloca o trabalho como uma necessidade natural do ser humano e a riqueza material como uma responsabilidade que deve ser bem administrada, visando o bem comum.

"Quando um homem trabalhou bastante e com o suor de seu rosto amontoou bens, vós o ouvis frequentemente dizer que, quando o dinheiro é ganho, conhece-lhe melhor o valor; nada é mais verdadeiro. Pois bem, que esse homem, que confessa conhecer todo o valor do dinheiro, faça a caridade segundo seus meios e terá mais mérito que do que aquele que, nascido na abundância, ignora as rudes fadigas do trabalho. Mas se, ao contrário, esse mesmo homem, que lembra suas penas, seus trabalhos, for egoísta, duro com os pobres, é bem mais culpado do que os outros; porque, quanto mais se conhece por si mesmo as dores ocultas da miséria, mais se deve procurar aliviá-las nos outros.
(...) Deus a dá a quem lhe parece bom geri-la em proveito de todos; o rico tem, pois, uma missão, que pode se tornar bela e proveitosa para ele; rejeitar a fortuna quando Deus vo-la dá é renunciar ao benefício do bem que se pode fazer em administrá-la com sabedoria. Saber passar sem ela quando não a tem, saber empregá-la utilmente quando a possui, saber sacrificá-la quando isso é necessário, é agir segundo os desígnios do Senhor." Desprendimento dos Bens Terrenos, capítulo XVI, O Evangelho Segundo o Espiritismo.