Participei da estréia desse clássico em minha cidade natal, havia apenas um outro espectador presente, o que achei excelente. Sem dúvida, o melhor de Melhor Impossível consiste na cena em que o personagem de Jack Nicholson fica incubido de dizer algo agradável para a bela Helen Hunt. Um elogio apenas, nada muito complexo. Para entender o diálogo, é precisa conhecer um pouco da trama.
Ele é um escritor de sucesso que vive sozinho uma rotina impecável, cheia de manias. Gosta de fazer suas refeições em um restaurante onde é atendido por ela, somente por ela, isso é essencial. Quando ela falta ao trabalho por que o filho está doente, ele contrata um excelente pediatra para que o pequeno melhore, assim ela poderia voltar a lhe servir diariamente. Nobre, porém estranho.
Ele ainda deixa claro que quer pagar por todas as despesas do tratamento (que o plano de saúde não cobre). Obviamente incomodada, durante a noite, ela vai até o apartamento dele e diz que nunca, jamais, nem que ele fosse o último homem da Terra, ela dormiria com ele. Nunca aconteceria, ele não poderia esperar por isso. Educadamente, de modo até a deixá-la envergonhada, ele diz que não se importa, apenas queria vê-la trabalhando no dia seguinte.
A relação evolui aos poucos, mas ela é repetidamente mal-tratada por ele (é notável como algumas pessoas de grande inteligência intelectual têm péssima habilidade em se relacionar afetivamente). Durante o primeiro jantar em um restaurante, cansada, ela pede que ele diga algo agradável para ela, um elogio. Ele inicia um longo raciocínio:
"Eu tenho este... distúrbio e meu médico, um psiquiatra, disse que, em 50 a 60% das vezes, uma pílula pode realmente ajudar. Eu odeio pílulas, são coisas perigosas. Odeio, estou usando a palavra odeio para pílulas. Meu elogio para você é que, naquela vez que você foi para minha casa e me disse que nunca... bom, você estava lá, você sabe... Na manhã seguinte, eu comecei a tomar essas pílulas." "Não entendi como isso pode ser um elogio." Confiante, ele arremata: "Você me faz querer ser um homem melhor." Sem defesas, ela admite encantada: "Esse talvez seja o melhor elogio da minha vida."
E se a mulher ideal for justamente aquela que diga não? Com seu charme irressistível, ela pode motivar mudanças de paradigmas e ações concretas pela esperança de que, um dia, a resposta seja diferente. É exatamente com o esperado sim que termina o filme, deixando uma singela mensagem de otimismo: se até ele conseguiu, por que eu não conseguiria? Melhor impossível.