sábado, 22 de fevereiro de 2014

Melhor Impossível (As Good As It Gets) 1997

Participei da estréia desse clássico em minha cidade natal, havia apenas um outro espectador presente, o que achei excelente. Sem dúvida, o melhor de Melhor Impossível consiste na cena em que o personagem de Jack Nicholson fica incubido de dizer algo agradável para a bela Helen Hunt. Um elogio apenas, nada muito complexo. Para entender o diálogo, é precisa conhecer um pouco da trama.
Ele é um escritor de sucesso que vive sozinho uma rotina impecável, cheia de manias. Gosta de fazer suas refeições em um restaurante onde é atendido por ela, somente por ela, isso é essencial. Quando ela falta ao trabalho por que o filho está doente, ele contrata um excelente pediatra para que o pequeno melhore, assim ela poderia voltar a lhe servir diariamente. Nobre, porém estranho.
Ele ainda deixa claro que quer pagar por todas as despesas do tratamento (que o plano de saúde não cobre). Obviamente incomodada, durante a noite, ela vai até o apartamento dele e diz que nunca, jamais, nem que ele fosse o último homem da Terra, ela dormiria com ele. Nunca aconteceria, ele não poderia esperar por isso. Educadamente, de modo até a deixá-la envergonhada, ele diz que não se importa, apenas queria vê-la trabalhando no dia seguinte.
A relação evolui aos poucos, mas ela é repetidamente mal-tratada por ele (é notável como algumas pessoas de grande inteligência intelectual têm péssima habilidade em se relacionar afetivamente). Durante o primeiro jantar em um restaurante, cansada, ela pede que ele diga algo agradável para ela, um elogio. Ele inicia um longo raciocínio:
"Eu tenho este... distúrbio e meu médico, um psiquiatra, disse que, em 50 a 60% das vezes, uma pílula pode realmente ajudar. Eu odeio pílulas, são coisas perigosas. Odeio, estou usando a palavra odeio para pílulas. Meu elogio para você é que, naquela vez que você foi para minha casa e me disse que nunca... bom, você estava lá, você sabe... Na manhã seguinte, eu comecei a tomar essas pílulas." "Não entendi como isso pode ser um elogio." Confiante, ele arremata: "Você me faz querer ser um homem melhor." Sem defesas, ela admite encantada: "Esse talvez seja o melhor elogio da minha vida."
E se a mulher ideal for justamente aquela que diga não? Com seu charme irressistível, ela pode motivar mudanças de paradigmas e ações concretas pela esperança de que, um dia, a resposta seja diferente. É exatamente com o esperado sim que termina o filme, deixando uma singela mensagem de otimismo: se até ele conseguiu, por que eu não conseguiria? Melhor impossível.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A Aposta

Stannis Pub é um local agradável de Jaraguá do Sul, onde fui visitar meu primo mais velho no último sábado. Ele conta que se encantou com a cidade quando, no primeiro dia hospedado no vale, conheceu esse estabelecimento. Chegamos cedo no "porão", escolhemos lugares no balcão em frente a um grosso cano dourado por onde saia 4 tipos de chopp fabricados exclusivamente por eles. Eu diria que a cevada é uma paixão familiar, não por acaso estávamos ali.
Um dos momentos da noite foi quando começou a tocar Love Buzz nos falantes, em volume ambiente, e meu primo parou, tentando ouvi-la. Eu disse que era Nirvana, ele discordou, era Rage Against The Machine. Convicto, disse-lhe que apostava minha vida como aquilo era Nirvana, até porque eu conhecia toda a discografia do Rage Against. Ele, rindo, disse que apenas apostava um abraço. "Pode ser?"
Ouvia-se o contra-baixo, mas a guitarra pouco e o vocal era imperceptível. Já havia bastante gente no bar, a conversa abafava a melodia. Meu primo perguntou para o atendente que estava em nossa frente atrás do balcão, acrescentando nossos palpites. Ele discordou de nós dois, novamente apostei minha vida e um segundo funcionário, que começara a acompanhar a discussão, também achou graça da minha certeza.
Perguntaram para um quinto elemento, também funcionário da casa, que, em segundos, sentenciou: "É Nirvana." "Rá!" exclamei vitorioso. Claro que era Nirvana, eu poderia apostar a minha vida.

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Eu e meu primo temos em comum um padrão "cíclico" de relacionamentos afetivos. Alguns duram meses, outros anos, mas nenhum vinga. Apesar dessa semelhança, existe uma diferença marcante que ele expressou com uma pergunta: "Por que você tenta emendar um namoro seguido do outro?" Segundo ele, seria melhor ficar solteiro e sair com 5 mulheres diferentes, todas aceitando que não são as únicas. Cinco é melhor que só uma. Prontamente discordei.
Meu primeiro argumento foi que as melhores mulheres querem exclusividade, então se eu adotasse uma tática "aberta", não conseguiria ficar com quem eu realmente quisesse. Segundo, prefiro a intimidade crescente e a paz da monogamia. A terceira razão veio alguns minutos depois: sou bastante possessivo, não suportaria a idéia de dividir minha mulher com outro. Obviamente só posso exigir fidelidade se eu for fiel.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Caros Leitores

Recentemente reencontrei uma colega e, quando o assunto do blog surgiu, ela me disse que já o acessava na época em que nos conhecemos, meses atrás. Sempre fico surpreso quando descubro que alguém lê meus posts. Um dos argumentos que uso para escrever é que as pessoas podem tirar algo positivo de minhas idéias, mas o principal motivo é outro: eu preciso escrever, é o meu desabafo, a minha terapia. A priori, escrevo para mim mesmo.
Desde cedo, aprendi a gostar de ler e de produzir criativamente. Organizar o pensamento através da escrita é uma forma eficiente de se chegar a conclusões, pode-se ler o mesmo texto repetidas vezes, em momentos diversos. Como ato terapêutico, eu deveria reler as postagens de tempos em tempos, mas minha compulsão é pela produção inédita. As novas idéias me são sempre as mais atraentes.
Talvez a terapia ocorra com meus leitores, já que alguns fazem um feedback do que posto; há um outro, ou melhor, "os outros" que analisam uma parte do que sou. São pessoas importantes que me motivam a cada bom encontro que acontece, tornando-me alguém melhor por saber que não estou sozinho e que, provavelmente, nunca estarei. Apesar de exposto, posso usufruir da liberdade de ficar mais leve a cada publicação.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Em Busca da Felicidade - parte 2

No último post, comento sobre "embates" ocorridos com meu pai durante algumas refeições familiares. Um dos mais memoráveis ocorreu em meados de 2007, um ano antes de me formar. Ele, de mau-humor, disse que já havia sido como eu, sempre vendo o lado bom das pessoas, mas a vida tinha ensinado que não era assim que funcionava. Hoje ele tinha uma visão mais pessimista do mundo.
Eu já havia tido uma conversa similar com meu irmão, então estava bem preparado para o duelo (se lembrarmos do complexo de Édipo, o filho rivaliza com o pai pelo amor da mãe; ali era a minha chance de vencê-lo, enfim). Armei a cilada: "E hoje você é mais feliz?" Pego de surpresa, ele respondeu após um instante me encarando: "Não, claro que não." Sabendo que ouviria isso, fiz logo o arremate: "Então o que adiantou ter mudado?" 
Sua situação começou a melhorar a seguir, meu diploma foi um dos fatores que aliviou as finanças. Agora, em 2014, ele parece estar no auge ou, pelo menos, em uma posição mais confortável. Coincidentemente ele tem a teoria de que a vida é cíclica, com altos e baixos a cada 7 anos. Embora eu considere sua idéia válida, quando ele me contou, comentei que minha vida não oscilava, era uma ascenção apenas; sem quedas, sem decadência. Ele achou graça.

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Também por essa época, o pai de um colega próximo de faculdade sofreu um infarto fulminante durante uma partida de futebol. Alguns dias depois, jantei com esse amigo que, arrasado, desabafou: "Às vezes, a vida te dá um tapa na cara, aí você vê o que realmente importa." Ao relembrar do ocorrido, percebo que talvez, após o episódio, eu tenha começado a visitar mais minha cidade natal; onde, em um final de tarde, meu patriarca me brindou relatando que já tinha tido uma vida social intensa, mas agora uma das coisas que ele mais gostava era de ficar em casa conversando com o filho.

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É curioso o fato de meu pai estar bem 7 anos depois de estar mal, exatamente como previa sua crença. Esta semana, comentei com uma colega de trabalho: "Geralmente a gente consegue o que quer." Para vidas trágicas, uma possível tese seria que algumas pessoas buscam a própria destruição, por motivos diversos. Se pudéssemos analisar história por história, talvez chegássemos à conclusão de que, geralmente, as pessoas escolhem seus próprios destinos.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Amor à Vida - parte 2

No almoço familiar de domingo, conversávamos sobre o fim da novela quando minha meia-irmã de 15 anos brincou que, se eu fosse gay, eu seria o Félix e meu pai o César. Achei seu comentário repleto de significado. A princípio, a fala pode ter surgido porque meu pai, há alguns anos, se dizia parecido com o galã Antonio Fagundes. Além disso, nossa relação também é marcada por "conflitos filosóficos" com ocasionais embates nas refeições de final de semana.
Félix decide ser o cuidador de César após um AVC que o deixou em uma cadeira de rodas, a última cena os mostra juntos de frente para uma bela praia. Talvez esse seja outro aspecto que me ligue ao ilustre personagem, sendo o único filho médico, cabe a mim zelar pelo patriarca quando sua saúde se debilitar. Felizmente não precisarei esperar tanto tempo para me reconciliar com ele, gosto de pensar que isso já ocorreu há muitos anos atrás.

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Ao meu ver, eu seria um misto entre os personagens Thales e Michel, embora ocorram risadas alheias quando verbalizo essa opinião. O escritor conseguiu casar com sua musa inspiradora, conquistando inclusive a sogra que inicialmente o odiava. O médico conseguiu o divórcio para ficar com a mulher de seus sonhos, mas teve que passar pelo constrangimento de não saber se o filho que a amada esperava era dele.

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Fiquei surpreso ao ver a queda meteórica do doutor César, decepcionante desenrolar eu diria. Talvez essa seja a idéia do autor, alertar que mesmo os mais poderosos podem ruir da noite para o dia. Se lembrarmos que todos envelhecemos e morremos, vale o exemplo da última cena. Ele foi um bom pai, sem dúvida, por isso seu filho estava lá ao seu lado. Apesar dos inúmeros defeitos, suas boas ações prevaleceram e ele mereceu um final feliz. Ao menos, em parte.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Liberdade Poética

Ontem de manhã, ocorreu um episódio inusitado. Ao sair do consultório para chamar a próxima paciente, uma jovem mulher que conversava com uma amiga recém atendida perguntou de mim, o "doutor", comentando: "Que bonitão." Eu, que já me considero um pouco surdo, pude escutar claramente pela curta distância que me separava do diálogo. Educadamente, respondi obrigado e, antes de fechar a porta, ainda pude ouvir: "Ele escutou!"
Eu vestia um tênis da Adidas que, embora novo, já apresentava manchas marrons. Calça jeans, uma camisa polo apertada pelo excesso de peso. Um jaleco amassado por ser transportado dentro de uma mochila pequena. O cabelo provavelmente desorganizado pois, além da falta de sabonete, não há espelho no banheiro do consultório. A barba por fazer, a cara cansada de quem acordou às 6 horas a semana toda. O mês inteiro.
Meu único charme naquele momento me parece ter sido o estetoscópio em volta do pescoço. Muitos médicos não o usam assim, mas eu ainda faço questão. Sobre os meus ombros, está acima das minhas vestimentas, acima da minha pessoa. Alguém pode alertar que tal instrumento atraia oportunistas, eu prefiro pensar que simplesmente minhas oportunidades são muito maiores por causa dele. Sob ele, sou mais.

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Certa vez, um amigo usou a expressão "afagar o Ego" com uma conotação negativa, no sentido de ser algo desnecessário, fútil. Eu, que não conhecia esse termo, achei genial. Hoje eu veria como um claro exemplo de "afagar o Ego" postar sobre uma cantada ocorrida durante o expediente matinal. Definitivamente, acabei de dar uma boa afagada no meu exigente Ego. Liberdade poética, mais uma vez, usufruída por ele.