sábado, 1 de fevereiro de 2014

Liberdade Poética

Ontem de manhã, ocorreu um episódio inusitado. Ao sair do consultório para chamar a próxima paciente, uma jovem mulher que conversava com uma amiga recém atendida perguntou de mim, o "doutor", comentando: "Que bonitão." Eu, que já me considero um pouco surdo, pude escutar claramente pela curta distância que me separava do diálogo. Educadamente, respondi obrigado e, antes de fechar a porta, ainda pude ouvir: "Ele escutou!"
Eu vestia um tênis da Adidas que, embora novo, já apresentava manchas marrons. Calça jeans, uma camisa polo apertada pelo excesso de peso. Um jaleco amassado por ser transportado dentro de uma mochila pequena. O cabelo provavelmente desorganizado pois, além da falta de sabonete, não há espelho no banheiro do consultório. A barba por fazer, a cara cansada de quem acordou às 6 horas a semana toda. O mês inteiro.
Meu único charme naquele momento me parece ter sido o estetoscópio em volta do pescoço. Muitos médicos não o usam assim, mas eu ainda faço questão. Sobre os meus ombros, está acima das minhas vestimentas, acima da minha pessoa. Alguém pode alertar que tal instrumento atraia oportunistas, eu prefiro pensar que simplesmente minhas oportunidades são muito maiores por causa dele. Sob ele, sou mais.

* * *

Certa vez, um amigo usou a expressão "afagar o Ego" com uma conotação negativa, no sentido de ser algo desnecessário, fútil. Eu, que não conhecia esse termo, achei genial. Hoje eu veria como um claro exemplo de "afagar o Ego" postar sobre uma cantada ocorrida durante o expediente matinal. Definitivamente, acabei de dar uma boa afagada no meu exigente Ego. Liberdade poética, mais uma vez, usufruída por ele.

Um comentário:

  1. Talvez apesar de tu estar vestido de uma maneira simples, ela tenha conseguindo enxergar o tamanho do seu coração e dedicação pelo teu trabalho. E lógico que ela estava certa ao dizer " que bonito", afinal eu tenho um irmão galã!

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