No último post, comento sobre "embates" ocorridos com meu pai durante algumas refeições familiares. Um dos mais memoráveis ocorreu em meados de 2007, um ano antes de me formar. Ele, de mau-humor, disse que já havia sido como eu, sempre vendo o lado bom das pessoas, mas a vida tinha ensinado que não era assim que funcionava. Hoje ele tinha uma visão mais pessimista do mundo.
Eu já havia tido uma conversa similar com meu irmão, então estava bem preparado para o duelo (se lembrarmos do complexo de Édipo, o filho rivaliza com o pai pelo amor da mãe; ali era a minha chance de vencê-lo, enfim). Armei a cilada: "E hoje você é mais feliz?" Pego de surpresa, ele respondeu após um instante me encarando: "Não, claro que não." Sabendo que ouviria isso, fiz logo o arremate: "Então o que adiantou ter mudado?"
Sua situação começou a melhorar a seguir, meu diploma foi um dos fatores que aliviou as finanças. Agora, em 2014, ele parece estar no auge ou, pelo menos, em uma posição mais confortável. Coincidentemente ele tem a teoria de que a vida é cíclica, com altos e baixos a cada 7 anos. Embora eu considere sua idéia válida, quando ele me contou, comentei que minha vida não oscilava, era uma ascenção apenas; sem quedas, sem decadência. Ele achou graça.
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Também por essa época, o pai de um colega próximo de faculdade sofreu um infarto fulminante durante uma partida de futebol. Alguns dias depois, jantei com esse amigo que, arrasado, desabafou: "Às vezes, a vida te dá um tapa na cara, aí você vê o que realmente importa." Ao relembrar do ocorrido, percebo que talvez, após o episódio, eu tenha começado a visitar mais minha cidade natal; onde, em um final de tarde, meu patriarca me brindou relatando que já tinha tido uma vida social intensa, mas agora uma das coisas que ele mais gostava era de ficar em casa conversando com o filho.
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É curioso o fato de meu pai estar bem 7 anos depois de estar mal, exatamente como previa sua crença. Esta semana, comentei com uma colega de trabalho: "Geralmente a gente consegue o que quer." Para vidas trágicas, uma possível tese seria que algumas pessoas buscam a própria destruição, por motivos diversos. Se pudéssemos analisar história por história, talvez chegássemos à conclusão de que, geralmente, as pessoas escolhem seus próprios destinos.
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