domingo, 14 de setembro de 2014

Ímpar

Lembro de ter escutado essa expressão designando um feito meu duas vezes. A primeira foi em 2002, ao tentar me matricular na UFSC após constar na lista de segunda chamada do vestibular. O detalhe é que fiz a prova um ano antes de me formar no ensino médio. Como as aulas começariam após julho, eu poderia antecipar minha formação no colégio e ingressar em seguida na faculdade. Havia uma chance de dar certo.
Eu e meu pai fomos a um prédio onde havia uma responsável que poderia nos prestar atendimento. Após escutar o relato, ela, educadamente, iniciou sua fala definindo aquela situação como ímpar. Apesar de não ter conseguido me matricular, tive uma boa impressão da instituição; passei novamente no vestibular seguinte, dessa vez, na primeira chamada. Mesmo na época, eu já comentara que tivera sorte no primeiro vestibular; no segundo, não.

* * *

No começo da última semana, comentei com minha colega que tivera uma boa impressão da nova secretária de saúde, aparentemente bem disposta a me auxiliar no que fosse preciso. A enfermeira respondeu que ela só poderia agir dessa forma, pois meu trabalho era ímpar. Surpreso, agradeci o nobre elogio. Três dias antes, havia atendido seu pedido de palestrar para cerca de cem homens em um evento de saúde; provavelmente, a melhor apresentação da minha vida.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Viroses

Um diagnóstico comum e, muitas vezes, ironizado, derruba-me novamente. Ontem à tarde começou uma irritação em minha faringe e uma leve coriza hialina. À noite, já estava completamente obstruído e com dor na garganta. Amanheci com dores pelo corpo e forte cefaléia. Liguei para a recepcionista e informei que estava gripado, não podendo atender hoje. Depois do meio-dia, um pouco melhor, saio da cama e tomo alguma medicação.
Ontem eu já desconfiava que uma criança que eu atendera no começo da semana me contaminara após uma tossida em meu rosto. "Ossos do ofício", certo? Meu plano era trabalhar normalmente de manhã e à tarde, depois, viajaria. Um organimo microscópico impediu o planejado, devo permanecer em casa, buscando me recuperar. Além de comer e dormir, ler e escrever me parecem ser atividades adequadas para o período.

* * *

Após trazê-los de Porto Alegre, meu primo me emprestou alguns livros de Charles Bucowski. Por algum motivo, achei que se tratava de um escritor do leste europeu do século XIX; mas ele nasceu na Alemanha em 1920 e morreu nos Estados Unidos em 1994, onde morava desde os três anos. Quatro anos após sua morte, foi publicado uma coleção de escritos de seu diário entre 1991 e 1993, intitulado "O Capitão Saiu para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio":

"Eu costumava rir mais, eu costumava fazer tudo mais, exceto escrever. Hoje, escrevo e escrevo e escrevo, quanto mais velho fico, mais escrevo, dançando com a morte. (...) Algumas pessoas escreveram que meus livros as ajudaram a seguir em frente. Me ajudaram também. Os livros, os cavalos, os nove gatos." 29/08/91

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Paraíso

Anteontem, pela internet, comentei com um amigo que haviam perguntado dele em um restaurante. Ele respondeu que estava com saudade de almoçar ali, indagando em seguida quando eu trabalharia em alguma unidade perto de nossa cidade natal. Quase sem pensar, respondi que nunca, pois estava no paraíso. Imagino que poucas pessoas poderiam admitir isso, o que me faz pensar que tenho sorte; mais uma vez, grato, vivencio uma boa ventura.

"Could you believe in heaven, if heaven was all you had?" 
With Every Light - The Smashing Pumpkins

terça-feira, 9 de setembro de 2014

O Carro

Ontem, em um de meus locais de trabalho, a enfermeira se surpreendeu ao olhar o lugar onde costumo estacionar: "Que lindo! Me empresta a chave?!" Já havia conversado com ela sobre o tema, coincidentemente ela comprara o seu com o mesmo vendedor. Ao retornar, ela me parabenizou e indagou se, de fato, eu já havia rodado 1500km. Sim, "em apenas cinco dias", confirmei sorrindo, informando que viajara até o litoral gaúcho.
No dia anterior, meu pai perguntou se haviam aceitado o meu carro antigo, com 225000km rodados. "Claro que aceitaram!" Comentei que agora minha intenção era chegar aos 300000km e ficar pelo menos quatro anos com o investimento. Porém, fiz os cálculos com base nesses primeiros dias e, se continuar no ritmo, chego a essa marca em menos de três anos; em quatro anos, terei rodado 438000km.
No restaurante em que almocei com meu pai, reencontrei um amigo que não via há anos. Na época, ele tinha comprado um modelo da mesma marca; quando conversamos sobre isso, ele disse que o automóvel era o "video-game" do adulto. Concordo com a comparação, fui uma criança que adorava jogos eletrônicos. Outra lembrança de minha infância é de fazer longas viagens em carrões. Evidentemente, esse prazer me influencia até hoje.
Um dia antes, visitei meu tio mais jovem, o mais apaixonado pelas máquinas automobilísticas. Ao entrar para testar minha aquisição, ele logo reparou no painel: "Sensacional: 900km!" Confessei-lhe que uma das melhores coisas da vida era sair de uma concessionária com um carro zero. Fala-se do cheiro, mas não é apenas isso; há a mecânica surpreendente, o interior silencioso, a pintura impecável. Um diamante lapidado por mãos talentosas à minha inteira disposição.