quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Jogador de Futebol

Há muitos anos atrás, meu pai sonhou que meu irmão se tornara um renomado jogador de futebol, sendo requisitado até por clubes internacionais. Lembro de sua empolgação ao comentar que ficara surpreso com o talento esportivo do filho mais velho, que era "bom mesmo". De certa forma, cresci com o pensamento de ter um gigante na família e isso é parte importante da minha auto-estima.
Durante a faculdade, li o clássico de Freud, A Interpretação dos Sonhos, no qual ele discorre minuciosamente sobre o tema. O sonho de meu pai pode ter sido fruto de suas boas aspirações sobre o primogênito, algo natural em pais zelosos. Outra hipótese menos científica seria a de ter sido um sonho premonitório, obviamente essa é a idéia que defendo. Há muitos anos atrás, uma profecia ocorreu, não tenho dúvidas.
É irônico como posso estufar o peito e me gabar das glórias do meu irmão gratuitamente, sem ter que passar pela pressão diária que seu importante cargo impõe. Compartilho sua vitória sem o ônus de estar sempre à prova, sempre aos olhos da sociedade. Vivo em um lugar confortável, que meu pai viu e teve a felicidade de compartilhar conosco em uma manhã antiga de verão.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Encontro Marcado

No último dia de Finados, viajei para o litoral do Rio Grande do Sul, onde estão meus avós; no caminho, passei em minha cidade natal para dar uma carona para minha irmã. Ao saírmos de casa, meu irmão, que não sabia que eu estava na cidade, ligou para ela e combinamos de ir juntos ao cemitério. Esse encontro familiar não ocorria há muitos anos; desta vez, fui acompanhado pela minha esposa e ele pela sua namorada e sogra.
Essas visitas sempre foram carregadas de uma dolorosa comoção, o que me impelia a evitá-las (paradoxalmente, de tempos em tempos, eu sentia uma forte necessidade de ir até lá). Agora, porém, o clima era ameno e o sofrimento parecia ter sido finalmente superado. Em volta da lápide, após um breve silêncio, conversamos sobre os últimos acontecimentos de nossas vidas.
Meu irmão reparou no brilho dourado que minha mão esquerda refletia, ironizando o fato de não ter sido convidado para meu casamento (na verdade, não houve festa e, por isso, ninguém foi convidado). Minha cunhada aproveitou o embalo e, bem humorada, reclamou de termos "passado na frente" deles, que eram mais velhos e estavam juntos há muito mais tempo.
Como de costume, ela reparou na minha fartura de cabelo, em contraste ao primogênito da família. Em meio a risadas gerais, ela justificou essa diferença lembrando que eu havia feito Medicina e assim não passara pelas dificuldades que um bacharel em Direito enfrenta no início da carreira. Embora eu reconheça dois caminhos diferentes, imagino que nossa felicidade hoje seja a mesma: um sentimento absoluto sobre as provações passadas.

sábado, 9 de novembro de 2013

Sobre o Programa Mais Médicos - parte 2

O texto abaixo foi finalizado há algumas semanas, mas primeiramente optei por não publicá-lo por considerar errado "crucificar" alguém, independente da gravidade de seu erro. No entanto, deparo-me frequentemente com pessoas inteligentes, bem formadas, que parecem apoiar cegamente o programa; por isso, exponho o caso que me é um exemplo claro do risco que envolve contratar um profissional mal preparado para atuar sem supervisão. 

* * *

Minhas esperanças na escola argentina foram parcialmente ceifadas pela conduta ilustre do médico argentino em Tramandaí-RS. Com 50 anos de idade e 25 de formação, ele receitou uma dose bizarra de Azitromicina para um paciente. Quando vi a receita pela primeira vez, pensei que, caso o médico se justificasse dizendo que o confundira com Amoxacilina, por exemplo, seria uma explicação plausível. Porém:

"Na tarde desta terça-feira, Cazajus justificou à reportagem de Zero Hora que a receita estava de acordo com as condições de saúde do paciente. Fumante, o homem que foi atendido na semana passada pelo profissional do Programa Mais Médicos apresentava um quadro de falta de ar.
— Era um paciente complicado, que aparentava não tomar medicação. Me excedi na dose, mas foi pelas características do paciente. Era a única opção que tinha.
Conforme o médico, o paciente realizou um raio X que apresentou uma infecção pulmonar leve. (...)

Por ser um paciente potencialmente grave, o médico receitou uma superdose de antibiótico e o liberou para casa (?!). A história ficava ainda pior:

"Após a confusão, e não satisfeitos com a prescrição, familiares do homem o levaram até o Hospital Regina, em Novo Hamburgo, na Região Metropolitana de Porto Alegre, e receberam nova avaliação médica. 'No hospital, fizeram um diagnóstico diferente da questão respiratória. Ele tinha um derrame pleural bilateral que deveria ter sido identificado já no primeiro raio-x. A sorte é que o paciente foi visto por outro médico, que suspendeu a medicação e fez o tratamento adequado', afirmou Matos.
Segundo o presidente do Cremers, a avaliação mal feita a partir do primeiro exame foi o erro mais grave, já que o derrame precisaria ter sido percebido pelo médico estrangeiro. A assessoria de comunicação do hospital confirmou ao G1 que o homem deu entrada no último domingo (13) e recebeu alta nesta quarta-feira (16). 'Agora ele será encaminhado para tratamento no setor de oncologia do Sistema Único de Saúde', completou Matos." http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2013/10/conselho-do-rs-diz-que-profissional-do-mais-medicos-errou-diagnostico.html

Proporcionalmente, a Argentina possui mais médicos que o Brasil, formando inclusive brasileiros que são atraídos pela sua facilidade de formação. Estatisticamente, estamos perdendo, mas como estamos na prática? No universo que representa cada atendimento de saúde, qual escola se sai melhor?

"O Brasil possui 1,8 médicos por mil habitantes, índice menor que o da Argentina (3,2), do Uruguai (3,7), do Reino Unido (2,7), de Portugal (3,9) e Espanha (4)."