Quatro dias depois de termos ido ao show do Paul McCartney em Florianópolis, conversava com meu pai em Garopaba ao som que saia do meu carro: Beatles. Ele comentou que seus álbuns prediletos eram o Abbey Road e o Let it Be; supreso, mas nem tanto assim, disse que esses dois também eram meus prediletos, juntamente com seus antecessores White Album e Magical Mystery Tour, sobre o qual discorrerei.
A primeira música tem o mesmo nome do álbum; composta por Paul, abriu seu show na ilha. É uma música poderosa com uma bateria enérgica e intensas linhas de sopro, dando o tom da viagem que se inicia. "The Magical Mystery Tour is coming to take you away...", não seria isso exatamente o que buscamos na música?
The Fool on the Hill, outra obra-prima de McCartney, dá sequência ao tour, agora mais introspectivo. Uma linha suave e melancólica acompanha o vocal dramático com o qual muitas vezes me identifiquei: "He never listens to them, he knows that they're the fools; they don't like him, the fool on the hill sees the sun going down and the eyes in his head see the world spinning around."
Pulando algumas músicas que não gosto no álbum, chegamos à sexta faixa, última do lado A: I Am the Walrus, de Lennon. Confesso que, quando ela foi sugerida para ser tocada na Bottles, fiquei com o pé atrás; achava a música estranha, tendo como interessante apenas o pequeno trecho: "Sitting in an english garden, waiting for the sun...". Mas, ao vivo, ela se transformou em uma das minhas prediletas; sem dúvida alguma, um dos pontos altos de nossas apresentações: http://youtu.be/xSzFNnd2mxk
As três primeiras músicas do lado B são a minha sequência favorita do fab four. Hello Goodbye, single de McCartney, foi considerada por mim a predileta em meados de 2008/2009. A letra não só faz uma referência à morte de minha mãe em 1995, mas à minha inabilidade em estabelecer relações afetivas duradouras: "Oh, no; you say goodbye and I say hello. Hello, hello; I don't know why you say goodbye, I say hello."
Em texto escrito para o site da Bottles, texto esse nunca publicado, comento que uma das lembranças mais antigas que tenho é a de ver meu pai cantando o refrão de Strawberry Fields Forever, juntamente com John no disco de vinil. Melodicamente complexa, exprime bem a genialidade de seu criador. Uma bela poesia que na minha opinião, representa o coração do disco. Dessa vez, quem convida para a viagem é Lennon: "Let me take you down, cause I'm going to strawberry fields, nothing is real and nothing do get hung about." Ao comentar com meu pai sobre esta minha tríade predileta, ele respondeu, conforme o esperado, que esta música em particular era sensacional.
Antes do segundo show da Bottles em Joinville, em 2009, fomos dar uma entrevista na rádio local, sendo o entrevistado um amigo de nosso baixista, também joinvillense. Uma das perguntas que me deixou sem resposta foi: "que música cada um mais gosta de tocar?". Ao chegar minha vez, confessei sem saber o que responder: "nunca pensei sobre isso...". O radialista tentou ajudar: "uma música que tu pensa: essa eu gosto de tocar". Então me lembrei de um video da banda que havia sido postado recentemente, podendo enfim responder: "Penny Lane". http://youtu.be/ErCPmZKWlaQ
Acho notável que Paul tenha feito uma música sobre um lugar perto da casa onde John cresceu, inclusive no clipe há cenas de Lennon andando sozinho pelo bairro. Certa vez o baterista da Bottles comentou em um ensaio que não existia música mais alegre que Penny Lane, eu discordei: "ela tem um certo tom nostálgico". Essa melodia quase alegre me remete a um passado vivo que infelizmente não volta mais. Todos nós temos nossa Penny Lane em particular, com certeza.
Em sequência temos "Baby You're a Rich Man", que, mesmo extra-oficialmente, é atribuída à dupla Lennon/McCartney, sendo uma junção de duas músicas (uma de cada compositor). No entanto, ela me parece ser característica do guitarrista, que inclusive faz o vocal principal. Acho ela positivamente inspiradora, felizmente pude cantá-la algumas vezes acreditando que, de fato, era um homem rico. Algumas poucas vezes, friso.
A última música do lado B é All You Need Is Love, obra-prima de Lennon que foi estreada na primeira transmissão ao vivo da televisão para o mundo em 1967, alcançando 26 países. Não a considero musicalmente marcante, mas sua letra é um hino atemporal, representando a preocupação crescente de John pelo impacto de suas letras. Se Paul era o líder musical do quarteto, notável em álbuns como o Let It Be, John era o líder ideológico, capaz de elevar a música a um patamar revolucionário. Justamente ele foi precocemente assassinado em 1980.
"There's nothing you can do that can't be done, nothing you can sing that can't be sung, nothing you can say, but you can learn how the play the game, it's easy. There's nothing you can make that can't be made, no one you can save that can't be saved, nothing you can do, but you can learn how to be you in time, it's easy: all you need is love. There's nothing you can know that isn't known, nothing you can see that isn't shown, nowhere you can be that isn't where you're meant to be, it's easy: all you need is love."