terça-feira, 22 de setembro de 2015

Carros

Há exatamente um mês, atropelei um cachorro e o Fiesta foi para o conserto. Peguei-o na última sexta-feira, mas a alegria durou pouco; dois dias depois, acendeu uma luz no painel indicando falha mecânica. Evoluiu com dificuldade para ligar, voltando à concessionária. Hoje, ao chegar ao trabalho, comentei com o motorista da prefeitura que amor e ódio são faces de uma mesma moeda: eu amava o meu carro, mas agora o odiava e, assim, já vislumbrava uma troca.
Ano passado, ao comprá-lo, postei repleto de otimismo (http://tiarajusantos.blogspot.com.br/2014/09/o-carro.html); porém, o sinistro me deixou com dúvidas sobre a sua resistência. Atualmente, imagino que atropelar um animal em via expressa seja algo corriqueiro e um carro maior, além de sofrer menos danos, tem melhor estabilidade. Cheguei a cogitar algumas SUVs (meu pai costuma apontá-las como a melhor opção), mas realmente nenhuma me agrada. Não é o meu estilo.
Foi sugerido um Corolla, fiz piada: "Quando chegar aos sessenta anos, penso nele". A escolha mais óbvia seria um Focus ou um Cruze. Embora o primeiro seja a tendência natural, já não tenho mais tanta confiança na montadora; amor e ódio são, de fato, faces da mesma moeda. O segundo é maior e tive uma boa experiência após dirigir o sedan de meu avô por 2500km (http://tiarajusantos.blogspot.com.br/2014/12/road-trippin.html). Uma verdadeira nave.
Pela primeira vez, vislumbro ter um "carrão". O comentário da semana foi que, finalmente, eu estava largando a mania de ter "carro popular". Interessante que eu nunca me importei com o status que um modelo agrega. Optando por carros novos e completos, sempre tive tudo que precisava. Mas tinha um cachorro no meio do caminho. Minha namorada, que não o viu, disse que o impacto foi tão grande que pareceu o atropelamento de uma pessoa.
Embora o carro mantivesse seu funcionamento normal, ao fazer o retorno para uma área urbana, ele perdeu potência e o painel indicou aquecimento do motor. Assim ficamos "encalhados" em uma marginal desconhecida no meio da noite. Fortuitamente, recebemos auxílio em uma casa próxima, onde esperamos o guincho em segurança. Embora não aparentasse, o estrago foi grande: pára-choque, radiador, ar-condicionado, faróis...
Se segurança agora é a questão imperativa, uma terceira alternativa parece razoável: um Golf. Apesar de mais caro, teoricamente é o mais seguro da categoria e, segundo minha namorada, o carro mais bonito do mundo (descendente de alemães, sua família só compra dessa marca). Meu tio materno, feliz proprietário de um Jetta, também ressalta a tecnologia germânica. Segundo um tio paterno, a escolha da mulher tende a ser a mais acertada (!), embora ele não goste do modelo.
Ao pesquisar sobre os hatchs médios, vi que um leitor ironizou as reclamações de alguns motoristas, dizendo que ficaria bastante feliz com qualquer um desses carros (que legalmente não podem circular acima de 120km/h). Meu tio paterno também rebateu as criticas ao motor do Cruze: "Esse pessoal acha que é Fórmula 1 para precisar de motor mais potente?!" Realmente, nessa categoria, qualquer compra parece ser excelente.
Em tempos de crise, acredito que a melhor estratégia seja esperar alguma promoção, sem pressa (suspeito que consiga descontos de até 10% nos próximos meses). Historicamente, as montadoras acumularam grandes lucros, agora parece ser o momento ideal de buscar preços mais baixos. Apesar do azar do incidente, reconheço a minha boa sorte em poder sonhar com uma máquina nova. "Depois da tempestade, vem a bonança." Assim espero.

sábado, 19 de setembro de 2015

Sete Perguntas Estranhas

Uma das melhores leituras dos últimos tempos foi uma tradução do artigo do norte-americano Mark Manson: http://consciencia.ano-zero.com/2015/09/09/7-perguntas/?utm_source=facebook.com&utm_medium=social&utm_campaign=Postcron.com 
O original foi postado há um ano: http://markmanson.net/life-purpose 
Embora se proponha a ajudar a encontrar um propósito de vida, logo no início somos confrontados com a idéia de que essa definição não é clara para ninguém. 
"Mas aqui está a verdade. Nós existimos neste planeta por algum período indeterminado de tempo. Durante esse tempo nós fazemos coisas. Algumas dessas coisas são importantes. Outras não tem importância. E aquelas que são importantes dão à nossa vida significado e felicidade. As coisas sem importância basicamente desperdiçam e consomem nosso tempo."

1- O primeiro questionamento é sobre a necessidade de produzirmos valor com o nosso trabalho. Considero essa passagem brilhante:
"Tudo envolve sacrifício. Tudo tem algum tipo de custo. Nada é prazeiroso ou satisfatório o tempo todo. E assim a questão é a seguinte: que esforço ou sacrifício você deseja suportar? Em última análise, o que determina sua capacidade de dedicar-se a algo com que se importa é sua capacidade de lidar com os aspectos árduos e também suportar os inevitáveis dias difíceis."

2- A segunda questão polariza com a primeira, fazendo uma menção às nossas aspirações infantis, que não incluiam, por exemplo, ambições financeiras. Identifico-me com o exemplo citado pelo blogueiro:
"Quando eu era criança, costumava escrever histórias. Eu sentava no meu quarto sozinho, escrevendo sobre aliens, super-heróis, grandes guerreiros, meus amigos e minha família. Não porque eu quisesse que alguém lesse aquilo, não porque eu quisesse impressionar meus pais ou professores. Mas pelo puro prazer de escrever.
E então, por alguma razão, eu parei. E não me lembro o porquê."

3- A terceira pergunta é sobre nossas paixões. Um exemplo óbvio seria a minha atração pelos jogos de azar: quando estou jogando poker, por exemplo, chego a ficar sem jantar (a principal refeição do meu dia).
"Seja o que for, não busque apenas descobrir quais atividades deixam você desperto a noite inteira, mas busque pelos princípios cognitivos atrás dessas atividades que enfeitiçam você. Porque eles podem ser facilmente aplicáveis em qualquer situação."
Lembrei de uma comparação que fiz em 2013:
"Eu diria que um plantonista está sempre contando com a sorte, preso à expectativa de que tudo dará certo e transcorrerá tranquilamente. Assim como no jogo, desenvolvi a fama de ser 'pé quente' nos plantões, embora obviamente ninguém esteja imune à força do azar. Eventualmente, todo mundo se dá mal."

4- Vivemos em um mundo de aparências, certo? Essa passagem é especialmente provocante:
"Neste exato momento, há alguma coisa que você deseja fazer, alguma coisa que você pensa em fazer, uma coisa que você fantasia em fazer, mas ainda assim você não faz nada. Você tem seus motivos, sem dúvida. E você repete a si mesmo esses motivos ad infinitum.
Mas que motivos são esses? Porque eu posso dizer a você agora mesmo que se esses motivos estão baseados naquilo que os outros vão pensar, então você está ferrando com sua vida em grande estilo."

5- "Como você vai salvar o mundo?"
"Encontre um problema com o qual você se importa e comece a resolvê-lo. Obviamente, você não resolverá os problemas do mundo sozinho. Mas você pode contribuir e fazer a diferença. E esse sentimento de fazer a diferença é, no fim das contas, o mais importante para sua própria felicidade e sensação de propósito."

6- Aqui o autor volta a nos instigar a seguir nossos desejos:
"O que a maioria das pessoas não entende é que a paixão é o resultado da ação, e não sua causa.
Descobrir o que lhe deixa apaixonado pela vida e o que importa para você é um esporte radical, um processo de tentativa-e-erro. Nenhum de nós sabe exatamente o que vai sentir em relação a uma atividade até por fim realmente fazermos essa atividade."

7- "Se você soubesse que irá morrer em um ano a partir de agora, o que você faria e como você desejaria ser lembrado?"
"Qual será o seu legado? Que histórias as pessoas contarão sobre você quando se for? O que seu obituário diria? Haveria algo a ser dito, enfim? Se não houvesse, o que você gostaria que constasse nele? Como você pode trabalhar nessa direção hoje?"

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Pé Quente

Em uma fase de "hiato profissional", voltei a fazer plantões em uma cidade vizinha. Em 2013, postei sobre o local:
"Um dos PAs que venho trabalhando nos últimos meses é referência para mais de 60 mil pessoas. Durante uma plantão diurno de 12 horas, por exemplo, é comum haver mais de uma centena de atendimentos. Apesar de serem dois plantonistas por turno, a demanda é incessante e geralmente meus colegas ficam surpresos quando digo que estou fazendo plantões ali."
Ao reler a postagem, deparei-me com uma passagem que ainda soa atual:
"Decidi não fazer mais plantões a partir do mês que vem, embora ontem mesmo eu tenha lembrado para colegas de trabalho que eu já tomara essa decisão diversas vezes. Uma delas comentou: 'É um vício, não?' Talvez. Gosto de pensar que a Medicina ainda é um trabalho nobre, que ainda vale a pena apesar dos dias infortunos. Assim como no jogo, não é pelo dinheiro."

* * *

No meu último plantão em 2013, cheguei a ser parabenizado pela recepcionista por ser "pé quente", já que meus plantões costumavam ser tranquilos, com poucos casos graves. Após mais uma temporada esse ano, consolidei essa fama, sendo, por isso, formalmente convidado a continuar trabalhando ali. Embora já tenha iniciado meus serviços em outra cidade, fiz um plantão no último feriado e tenho outro marcado para o fim do mês.

* * *

O caso mais grave que atendi este ano foi durante uma madrugada de sábado, encaminhado de uma cidade vizinha: um rapaz havia sido esfaqueado duas vezes no tórax. Normalmente, eu estaria no outro lado da linha pedindo o encaminhamento; dessa vez, sendo a referência, prontamente aceitei receber o paciente. Cheguei a ser questionado por uma enfermeira, antiga funcionária dali, se o correto não seria encaminhar direto para o hospital (nesse caso, o cirurgião deveria ser consultado por meu colega e o procedimento, no mínimo, atrasaria).
Respondi que o PA era a porta de entrada do hospital e que seria melhor eu dizer "sim" e o paciente morrer conosco do que eu dizer "não" e ele morrer lá. A equipe toda, aparentemente, concordou. Duas horas depois, uma unidade do SAMU trouxe o jovem que, apesar de ter drenado pelo pulmão direito 1500ml de sangue, encontrava-se estável, sem sinal de hemorragia ativa. Após alguns minutos observando o dreno, concluí aliviado: "Parou de sangrar."
Falei com o cirurgião, que não questionou a transferência; também me senti bem de ligar apenas no começo da manhã para ele e não 3:30, hora em que recebi a ligação. Quando fui conversar com os familiares, tive a forte impressão de já ter atendido sua mãe (de fato, trabalhei por um ano em sua cidade). Porém, focado, falei apenas do paciente, que internou sem necessidade de cirurgia; alguns dias depois, recebeu alta. Que boa sorte, não?

* * *

No começo de 2009, um amigo de adolescência veio me procurar, dizendo que sempre me escutara e que queria saber a minha opinião. Ele acabara de se formar em Odontologia na UFSC, mas não estava otimista com a profissão; seu pai, agora, poderia pagar o curso de Medicina em uma universidade particular. O que fazer? Eu prontamente falei bem da carreira médica e, há alguns meses, fomos em sua nova formatura.
Ao chegarmos no jantar, seu pai, emocionado, disse para minha namorada, referindo-se a mim: "Esse é o homem mais inteligente do mundo!" Mais tarde, uma amiga lembrou que, durante a minha graduação, eu havia dito que, profissionalmente, queria "fazer a diferença" na sociedade. Respondi que já não era tão idealista assim, o que provocou risadas dos meus parceiros de ensino médio. Mesmo que eu negasse, era óbvio que eu me tornara o profissional almejado.

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Planejava viajar no último feriado, mas acabei ficando na região; coincidentemente, precisavam de um plantonista no sábado à noite e fui solicitado algumas vezes pela organizadora da escala. Faltando menos de uma hora para o turno, minha disponibilidade começou a pesar na consciência; liguei de volta e, como ainda não haviam conseguido um substituto, disse que poderia fazer o plantão. Por alguns intantes, cheguei a ser ovacionado como um herói.

* * *

Iniciando um novo expediente diurno, acabei abandonando os "feltros" (tecido que envolve as mesas de poker). A razão é simples: acordando cedo, acabo indo dormir no horário em que ocorrem os torneios. Além disso, não tenho tanta sorte nas cartas; embora eu ame o jogo, suponho que eu ame ainda mais a minha profissão. Meu tio materno, um engenheiro que lamentou sua aposentadoria precoce, costuma dizer: "Já pensou acordar todos os dias e fazer algo que você não gosta?!"

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Blefadorzinho - parte 10

Novamente consegui chegar na mesa final do torneio mais caro da semana. Nunca vi o salão tão cheio: trinta jogadores com desessete re-buys, o campeão levou para casa quinze vezes o valor da inscrição. Em certo momento, consegui acumular cerca de 220k fichas, feito inédito para mim no clube. Cheguei entre os nove finalistas com stack acima da média, mas amarguei um oitavo lugar após uma bad beat no river. Considerações:
1- Poker é um jogo de paciência, praticamente não joguei na primeira metade do torneio (aparentemente, essa seria uma de minhas piores performances). Na penúltima mão antes do intervalo, no big blind, venho com JJ. Vou all-in pré-flop, um jogador paga com A8s; logo no flop, aparece um Ás. Pelo menos, ainda havia tempo para a minha reentrada.
2- Big blind de 1200, o UTG aumenta para 2500; com AK, apenas pago, junto com o small e big. Flop: KT7, T e 7 de ouros, naipe que não tenho; o small vai all-in (11k), o big também (15k), o UTG folda. Minha leitura é que pelo menos um deles está no flush ou straight draw, o problema seria um KT ou 77. Antes de pagar, comento com um jogador: "Como eu falei antes, é muito difícil largar um AK." Meus adversários mostram um QJ e JT, nenhum ouro. Mantenho minha vantagem até o fim, iniciando agora uma boa ventura.
3- O melhor fold que eu já presenciei foi durante o big blind de 2k. O UTG sobe pra 6,5K e recebe um re-raise de 16k de um jogador tight. O UTG folda mostrando um AK, o tight mostra um AA. Que leitura.
4- Após algumas baixas, minha mesa foi dividida nas duas restantes; em um novo ambiente, o clima ficou naturalmente mais tenso. Com big blind de 4k, um jogador aposta 8k, estou no small com AJ, apenas completo, o big também. Flop: J73 rainbow, checo, eles também; turn: 2, aposto 8k. O big faz uma careta, como que perguntando: "você está blefando?" Mas acaba desistindo, junto com o apostador inicial. Amenizando os ares de guerra, mostro o J, ação cordialmente imitada por alguns vencedores seguintes.
5- Minha melhor jogada ocorreu quando eu estava no big blind de 6k. Um jogador faz raise de 12k, outro paga, o restante folda; venho com 63, como eu teria que pagar apenas mais 6k para concorrer ao pote de 43k, completo a aposta. Flop dos sonhos: 332 rainbow. Estou absoluto, mas, sendo o primeiro a falar, checo. O seguinte empurra 15k, o outro folda; simulando um blefe, volto all-in (52k). Ele paga mostrando um AQ; após a derrota, justifica: "Achei estranho esse re-raise dele."
6- Na mesa final, tive algumas dificuldades para jogar e, intimidado, cheguei a evitar de pagar um raise pré-flop com A4, no qual eu provavelmente teria dobrado minhas fichas (flopou AQ4 rainbow). No big blind de 14k, finalmente venho com QQ; aposto 30k, small e big pagam. Flop: KQ9, K e Q de paus. Eles pedem mesa, tendo em vista o óbvio risco de um flush ou straight, vou all-in; sem pensar muito, eles foldam.
7- Na mão seguinte, venho novamente com QQ! Repito a ação, 30k, apenas o small completa. Flop: 764 rainbow. Ele imediatamente vai all-in, eu pago sem perguntar o valor (116k). Ele mostra um J8; no turn: 9, no river: 5 e ele consegue a sequência. Coisas do jogo.
8- Consegui sobreviver mais uma rodada, no big blind que sequer consegui completar. Após a eliminação, indo embora, o colega que foldou o AK me parabeniza, comentando que eu estava "chegando perto". Conclusão: melhor que jogar um bom poker é ganhar o reconhecimento de bons jogadores.