quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Pé Quente

Em uma fase de "hiato profissional", voltei a fazer plantões em uma cidade vizinha. Em 2013, postei sobre o local:
"Um dos PAs que venho trabalhando nos últimos meses é referência para mais de 60 mil pessoas. Durante uma plantão diurno de 12 horas, por exemplo, é comum haver mais de uma centena de atendimentos. Apesar de serem dois plantonistas por turno, a demanda é incessante e geralmente meus colegas ficam surpresos quando digo que estou fazendo plantões ali."
Ao reler a postagem, deparei-me com uma passagem que ainda soa atual:
"Decidi não fazer mais plantões a partir do mês que vem, embora ontem mesmo eu tenha lembrado para colegas de trabalho que eu já tomara essa decisão diversas vezes. Uma delas comentou: 'É um vício, não?' Talvez. Gosto de pensar que a Medicina ainda é um trabalho nobre, que ainda vale a pena apesar dos dias infortunos. Assim como no jogo, não é pelo dinheiro."

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No meu último plantão em 2013, cheguei a ser parabenizado pela recepcionista por ser "pé quente", já que meus plantões costumavam ser tranquilos, com poucos casos graves. Após mais uma temporada esse ano, consolidei essa fama, sendo, por isso, formalmente convidado a continuar trabalhando ali. Embora já tenha iniciado meus serviços em outra cidade, fiz um plantão no último feriado e tenho outro marcado para o fim do mês.

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O caso mais grave que atendi este ano foi durante uma madrugada de sábado, encaminhado de uma cidade vizinha: um rapaz havia sido esfaqueado duas vezes no tórax. Normalmente, eu estaria no outro lado da linha pedindo o encaminhamento; dessa vez, sendo a referência, prontamente aceitei receber o paciente. Cheguei a ser questionado por uma enfermeira, antiga funcionária dali, se o correto não seria encaminhar direto para o hospital (nesse caso, o cirurgião deveria ser consultado por meu colega e o procedimento, no mínimo, atrasaria).
Respondi que o PA era a porta de entrada do hospital e que seria melhor eu dizer "sim" e o paciente morrer conosco do que eu dizer "não" e ele morrer lá. A equipe toda, aparentemente, concordou. Duas horas depois, uma unidade do SAMU trouxe o jovem que, apesar de ter drenado pelo pulmão direito 1500ml de sangue, encontrava-se estável, sem sinal de hemorragia ativa. Após alguns minutos observando o dreno, concluí aliviado: "Parou de sangrar."
Falei com o cirurgião, que não questionou a transferência; também me senti bem de ligar apenas no começo da manhã para ele e não 3:30, hora em que recebi a ligação. Quando fui conversar com os familiares, tive a forte impressão de já ter atendido sua mãe (de fato, trabalhei por um ano em sua cidade). Porém, focado, falei apenas do paciente, que internou sem necessidade de cirurgia; alguns dias depois, recebeu alta. Que boa sorte, não?

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No começo de 2009, um amigo de adolescência veio me procurar, dizendo que sempre me escutara e que queria saber a minha opinião. Ele acabara de se formar em Odontologia na UFSC, mas não estava otimista com a profissão; seu pai, agora, poderia pagar o curso de Medicina em uma universidade particular. O que fazer? Eu prontamente falei bem da carreira médica e, há alguns meses, fomos em sua nova formatura.
Ao chegarmos no jantar, seu pai, emocionado, disse para minha namorada, referindo-se a mim: "Esse é o homem mais inteligente do mundo!" Mais tarde, uma amiga lembrou que, durante a minha graduação, eu havia dito que, profissionalmente, queria "fazer a diferença" na sociedade. Respondi que já não era tão idealista assim, o que provocou risadas dos meus parceiros de ensino médio. Mesmo que eu negasse, era óbvio que eu me tornara o profissional almejado.

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Planejava viajar no último feriado, mas acabei ficando na região; coincidentemente, precisavam de um plantonista no sábado à noite e fui solicitado algumas vezes pela organizadora da escala. Faltando menos de uma hora para o turno, minha disponibilidade começou a pesar na consciência; liguei de volta e, como ainda não haviam conseguido um substituto, disse que poderia fazer o plantão. Por alguns intantes, cheguei a ser ovacionado como um herói.

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Iniciando um novo expediente diurno, acabei abandonando os "feltros" (tecido que envolve as mesas de poker). A razão é simples: acordando cedo, acabo indo dormir no horário em que ocorrem os torneios. Além disso, não tenho tanta sorte nas cartas; embora eu ame o jogo, suponho que eu ame ainda mais a minha profissão. Meu tio materno, um engenheiro que lamentou sua aposentadoria precoce, costuma dizer: "Já pensou acordar todos os dias e fazer algo que você não gosta?!"

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