terça-feira, 30 de junho de 2015

Blefadorzinho - parte 6

Ultimamente tenho afirmado, com certa ironia, que vou viver do pôquer; ontem, finalmente, o plano inusitado foi posto em prática. Após uma rápida pesquisa, descobri, a alguns metros de casa, um clube que organiza torneios semanais. Ontem houve um com dezessete competidores, onde amarguei um mediano décimo lugar. Claro que alguma lição pode ser sempre aprendida.
No final de semana, relembrei a estratégia do Texas Holdem e uma das expressões correntes se chama "bad beat", que caracteriza uma perda quando, teoricamente, haveria mais chances de vitória. Já descrevi algumas situações dessas, como um KK perder de um 88 após um all-in pré-flop, ou um AK perder de um Q6 na mesma situação. Ontem, mais uma vez, fui eliminado em uma bad beat clássica: 
O jogador à minha direita faz um raise pré-flop, apesar de eu ter AK, apenas pago, esperando que mais alguém entre, mas fico isolado com o adversário. No flop: K83, todos de ouro, ele pede mesa e, sem ter o naipe, mas com o top pair, anuncio all-in (mais do que o dobro do pote). Como ele tinha mais fichas, pagou e mostrou o Ás de ouro acompanhado de um 10 escuro. Eu tinha mais chances de vencer, mas logo no turn veio o quinto metal precioso. Faltou-me sorte.
Descobri hoje que ele venceu o torneio. Outra bad beat que lembro dele ter aplicado foi vencer um all-in pré-flop com Q10 contra QJ: no river, virou o 10. Pode-se dizer que ele estava iluminado, sendo, ao meu ver, um exemplo de como o "fator sorte" pode ser determinante no resultado final. Teoricamente, se você jogar corretamente, a longo prazo vai ganhar, mas sabemos que nem sempre é assim. A vida está repleta de bad beats, não?

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Silverchair - Neon Ballroom (1999)

Marcando uma mudança de estilo, fui um dos fãs que inicialmente rejeitou o disco que, hoje, considero um dos melhores já produzidos. A primeira faixa, Emotion Sickness, oferece seis minutos repletos de frases musicais intensas. Em seguida, o single Anthem For The Year 2000 mata a saciedade pelas guitarras pesadas, porém, em ritmo mais brando. Ana's Song traz inesperados violões, quebrados pela desabafo: "And you're my obsession, I love you to the bones..."
Spawn Again recorda os álbuns anteriores, com um vocal gritado que parece mais um discurso de protesto; uma sirene também contrasta com a densa melodia. Miss You Love seria a balada perfeita se não fosse pela letra tradicionalmente conflitante. Dearest Helpless lembra o tom sombrio do álbum anterior, Freak Show, assim como Do You Feel The Same. Black Tangled Heart lembra o início do disco com ampla presença orquestral, mas com menos intensidade.
O efeito da guitarra de Point of View lembra o single de 1997, Abuse Me; mas sua melodia e ritmo vai além e recorda o álbum inicial, Frogstomp (1995), assim como a faixa seguinte, Satin Sheets. Paint Pastel Princess foi o quarto e último single do disco, mas, embora bem elaborada, não considero melhor que Emotion Sickness ou Point of View. Steam Will Rise finaliza a coleção em mais uma tonalidade escura.
Certa vez, meu tio comentou que as maiores obras da humanidade foram criadas quando seus autores se encontravam em crise, angustiados; aqui, temos mais um grande exemplo. Daniel Johns relatou que, nessa época, "odiava música", mas sentia que não poderia parar, como se fosse um escravo dela. Nós agradecemos a sua insistência.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Blefadorzinho - parte 5

Após muitos meses sem jogar, voltei a disputar um torneio de Texas Holdem; dessa vez, com inscrições mais caras, haviam apenas onze competidores. Após a reviravolta no último torneio (http://tiarajusantos.blogspot.com.br/2014/11/blefadorzinho-parte-4.html), eu estava decidido a ser o mais educado possível, optando pelo estilo "tight-aggressive" clássico, evitando blefar. Mesmo assim, a sorte brilhou e, na metade do torneio, quando as fichas foram contadas, eu era o "chip leader".
Podendo arriscar, impus um ritmo mais agressivo e, infortunamente, acabei perdendo a liderança. Minha última jogada foi um all-in pré-flop com um esperado AK contra um Q6: logo no flop apareceu outra dama e fui eliminado em quarto lugar. Apesar do frustrante fim, tenho algumas boas lembranças da disputa. Uma delas ocorreu quando meu adversário, sentado imediatamente à minha direita, interrompeu o crupiê dizendo que havia visto minha carta.
"Um cinco escuro" ele disse. Anteriormente, ele se mostrara um pouco irritado após eu o passar na contagem das fichas, chegando a fazer algumas provocações; no momento, ele se encontrava visivelmente mal-humorado após um pequeno desentendimento com o administrador do clube. Ao refletir sobre o ocorrido, vejo que eu poderia ter reagido de várias formas, a mais óbvia seria eu simplesmente conferir a carta recebida (caso não fosse o cinco escuro, meu oponente provavelmente seria advertido).
Outra reação possível seria reclamar do crupiê, mas agi de forma instintiva: sem virar a carta, devolvi-a e apenas agradeci meu inimigo, "Thanks, man." O crupiê também não conferiu o cinco e logo reiniciou o jogo, que seguiu sem mais intercorrências. No dia seguinte, fui buscar meu tio em seu escritório e, quando ele entrou no carro, usou a minha entonação americanizada: "E aí, man?". Claramente ele estava me imitando, o que me é uma grande honra.

terça-feira, 23 de junho de 2015

O Relógio

Meu pai já comentou que ele gosta de ter vários relógios de pulso e imagino que, por isso, ele costuma presentear seus filhos com eles; na faculdade, usei um modelo esportivo que ele me dera no Natal. Durante minha formatura, porém, uma das professoras me deu um de metal prateado, mais adulto. Por um ano, eu não o usei pois ele precisava ter o tamanho adaptado; só o levei ao relojoalheiro quando o outro, após muito uso, teve uma parte quebrada.
O profissional me informou que não teria como trocar a peça danificada, mas que facilmente poderia ajustar o prateado ao meu pulso, que tenho usado desde então. Há um ano, meu pai me comprou um de couro, preto, que teve o vidro trincado recentemente após uma queda no banheiro. Assim, voltei a usar a resistente peça metálica, que também é plena de significado: no bilhete que veio junto, após a colação de grau, a professora escreveu algo como "Você é a minha esperança de que ainda haverá bons médicos."
A pediatra acompanhara nossa turma desde a primeira fase e me auxiliara no TCC (que era qualitativo, sua especialidade). Lembro que, no início do curso, um de seus conselhos para nós foi: sempre que você se sentir sobrecarregado ou esgotado, "dê um tempo". Na época, ela se referiu aos estudos, mas a lição também pode ser estendida para a carreira profissional; não poderíamos funcionar como engrenagens que, infalivelmente, movimentam os ponteiros de um relógio.