No último dia de Finados, viajei para o litoral do Rio Grande do Sul, onde estão meus avós; no caminho, passei em minha cidade natal para dar uma carona para minha irmã. Ao saírmos de casa, meu irmão, que não sabia que eu estava na cidade, ligou para ela e combinamos de ir juntos ao cemitério. Esse encontro familiar não ocorria há muitos anos; desta vez, fui acompanhado pela minha esposa e ele pela sua namorada e sogra.
Essas visitas sempre foram carregadas de uma dolorosa comoção, o que me impelia a evitá-las (paradoxalmente, de tempos em tempos, eu sentia uma forte necessidade de ir até lá). Agora, porém, o clima era ameno e o sofrimento parecia ter sido finalmente superado. Em volta da lápide, após um breve silêncio, conversamos sobre os últimos acontecimentos de nossas vidas.
Meu irmão reparou no brilho dourado que minha mão esquerda refletia, ironizando o fato de não ter sido convidado para meu casamento (na verdade, não houve festa e, por isso, ninguém foi convidado). Minha cunhada aproveitou o embalo e, bem humorada, reclamou de termos "passado na frente" deles, que eram mais velhos e estavam juntos há muito mais tempo.
Como de costume, ela reparou na minha fartura de cabelo, em contraste ao primogênito da família. Em meio a risadas gerais, ela justificou essa diferença lembrando que eu havia feito Medicina e assim não passara pelas dificuldades que um bacharel em Direito enfrenta no início da carreira. Embora eu reconheça dois caminhos diferentes, imagino que nossa felicidade hoje seja a mesma: um sentimento absoluto sobre as provações passadas.
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