Há cerca de um mês, levei meu avô para conhecer São Francisco do Sul, onde um de seus filhos mora há três anos. Na sala de estar, haviam dois violões; peguei um, meu primo mais novo pegou o outro e começamos a afiná-los. Meu avô sentou e esperou que tocássemos, como não sabíamos nenhuma música em comum, improvisamos um ritmo de blues. Ao fim, meu avô perguntou se eu ainda tocava guitarra; respondi-lhe que apenas em casa, sozinho. Com a voz suave, ele disse que eu não deveria parar.
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Três meses atrás, fui a uma festa de aniversário de um amigo de adolescência, atualmente vocalista de um conjunto promissor. Na garagem de sua casa de praia, foram montadas uma bateria e um amplificador, onde foram plugadas uma guitarra e um contra-baixo. Alguns convidados tentaram tocar algumas músicas, mas aparentemente não houve uma sintonia entre eles. Ao buscar uma nova bebida, solicitaram-me que assumisse o baixo e eu não tive coragem de dizer não.
Após uma tímida interação musical, o guitarrista (na verdade, um baixista que, como eu, estava com o instrumento trocado) começou a fazer o riff de uma canção que eu não escutava há mais de dez anos. Comecei a acompanhar a melodia e, quase inexplicavelmente, veio-me as notas seguintes da base: fá, sol, voltando para fá. Ao perceberem minha execução correta, ele e o baterista se empolgaram e, a partir dali, entramos em franca harmonia.
Mais tarde, um outro guitarrista entrou em cena; sem esconder a satisfação de voltar a interagir com outros músicos, permaneci nas frequências baixas. Depois de mais uma execução inspirada, ele fez um comentário e eu, quase envergonhado, confessei: "Acho que nunca escutei essa música antes." Certa surpresa no ar, como eu poderia tocar uma canção desconhecida de forma tão fluente?
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Há alguns anos, estávamos reunidos na varanda da casa de meus avós, onde uma seleção regional vinha do estéreo. Uma prima trouxera seu violão, como a conversa esfriara, peguei-o. Sua mãe protestou: "Não, duas músicas ao mesmo tempo não dá!" Sereno, informei que iria apenas fazer o acompanhamento; ela ficou atenta, como se dissesse: "Quero ver." Após afinar o instrumento, fiz uma linha criativa que deu um ar de modernidade à canção gauchesca; minha tia acabou se rendendo e, instantes depois, comentou sobre talento musical.
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Mês passado, a convite de meu primo mais velho, fui a um festival de jazz na capital gaúcha; não sabíamos o que encontrar, mas a impressão inicial foi positiva: um salão amplo com pessoas elegantes e opções de comes e bebes. A primeira atração me foi uma experiência inédita: dois pianos, um de frente para o outro; pai e filho, mestre e aprendiz. Em certo momento, foi sugerida uma melodia dos Beatles; olhei para meu primo, falando ao mesmo tempo que ele: "Yesterday."
"Pianistas de duas gerações diferentes que são referências na música instrumental do Rio Grande do Sul, pai e filho realizam um encontro emocionante. Paulo Dorfman, o grande homenageado da primeira edição do Porto Alegre Jazz Festival, é maestro, arranjador e professor de música, e já formou diversos alunos que hoje se destacam no Brasil e exterior. Também professor de música, Michel iniciou seus estudos ao lado do pai e se tornou um dos mais talentosos pianistas de sua geração. Hoje, é um dos mais requisitados músicos gaúchos, e já ganhou dois prêmios Açorianos como melhor pianista."
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