quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Músicos

Há cerca de um mês, levei meu avô para conhecer São Francisco do Sul, onde um de seus filhos mora há três anos. Na sala de estar, haviam dois violões; peguei um, meu primo mais novo pegou o outro e começamos a afiná-los. Meu avô sentou e esperou que tocássemos, como não sabíamos nenhuma música em comum, improvisamos um ritmo de blues. Ao fim, meu avô perguntou se eu ainda tocava guitarra; respondi-lhe que apenas em casa, sozinho. Com a voz suave, ele disse que eu não deveria parar.

* * *

Três meses atrás, fui a uma festa de aniversário de um amigo de adolescência, atualmente vocalista de um conjunto promissor. Na garagem de sua casa de praia, foram montadas uma bateria e um amplificador, onde foram plugadas uma guitarra e um contra-baixo. Alguns convidados tentaram tocar algumas músicas, mas aparentemente não houve uma sintonia entre eles. Ao buscar uma nova bebida, solicitaram-me que assumisse o baixo e eu não tive coragem de dizer não.
Após uma tímida interação musical, o guitarrista (na verdade, um baixista que, como eu, estava com o instrumento trocado) começou a fazer o riff de uma canção que eu não escutava há mais de dez anos. Comecei a acompanhar a melodia e, quase inexplicavelmente, veio-me as notas seguintes da base: fá, sol, voltando para fá. Ao perceberem minha execução correta, ele e o baterista se empolgaram e, a partir dali, entramos em franca harmonia.
Mais tarde, um outro guitarrista entrou em cena; sem esconder a satisfação de voltar a interagir com outros músicos, permaneci nas frequências baixas. Depois de mais uma execução inspirada, ele fez um comentário e eu, quase envergonhado, confessei: "Acho que nunca escutei essa música antes." Certa surpresa no ar, como eu poderia tocar uma canção desconhecida de forma tão fluente?

* * *

Há alguns anos, estávamos reunidos na varanda da casa de meus avós, onde uma seleção regional vinha do estéreo. Uma prima trouxera seu violão, como a conversa esfriara, peguei-o. Sua mãe protestou: "Não, duas músicas ao mesmo tempo não dá!" Sereno, informei que iria apenas fazer o acompanhamento; ela ficou atenta, como se dissesse: "Quero ver." Após afinar o instrumento, fiz uma linha criativa que deu um ar de modernidade à canção gauchesca; minha tia acabou se rendendo e, instantes depois, comentou sobre talento musical.

* * *

Mês passado, a convite de meu primo mais velho, fui a um festival de jazz na capital gaúcha; não sabíamos o que encontrar, mas a impressão inicial foi positiva: um salão amplo com pessoas elegantes e opções de comes e bebes. A primeira atração me foi uma experiência inédita: dois pianos, um de frente para o outro; pai e filho, mestre e aprendiz. Em certo momento, foi sugerida uma melodia dos Beatles; olhei para meu primo, falando ao mesmo tempo que ele: "Yesterday."

"Pianistas de duas gerações diferentes que são referências na música instrumental do Rio Grande do Sul, pai e filho realizam um encontro emocionante. Paulo Dorfman, o grande homenageado da primeira edição do Porto Alegre Jazz Festival, é maestro, arranjador e professor de música, e já formou diversos alunos que hoje se destacam no Brasil e exterior. Também professor de música, Michel iniciou seus estudos ao lado do pai e se tornou um dos mais talentosos pianistas de sua geração. Hoje, é um dos mais requisitados músicos gaúchos, e já ganhou dois prêmios Açorianos como melhor pianista."

Nenhum comentário:

Postar um comentário