domingo, 12 de agosto de 2012

A Irmandade da Guerra (Tae Guk Gi) 2004


Meu irmão colecionou DVDs de filmes desde 2007, recentemente adquiri parte de seu acervo e subitamente tive à disposição centenas de títulos. Dessa forma, ficou claro meu gênero preferido: o primeiro filme que vi foi Tigerland (2000), sobre o treinamento dos americanos em 1971 antes de embarcar para o Vietnã; o segundo foi esse espetacular filme sul-coreano que retrata a guerra da Coréia no período de 1950-1953.
O longa-metragem narra a trajetória de dois irmãos sul-coreanos (o mais novo com dezoito anos) que são forçados a entrar no exército após a invasão comunista. A tragédia da guerra é exposta de forma explícita, simbolizada pela gradual ruína da relação familiar. Nos extras do DVD, comentasse que o objetivo do filme era justamente mostrar a importância de se manter a paz; ao meu ver, essa meta é cumprida de forma maestral.
A Coréia fica encravada entre a China e o Japão, talvez por isso seja marcada por guerras. Em 1895 foi "liberta" dos chineses pelos japoneses, que impuseram seu domínio entre 1910-1945. Com a vitória da China e dos Estados Unidos na Segunda Guerra, a Coréia foi ridiculamente dividida em duas metades pelo paralelo 38. O resto todo mundo sabe: formaram-se dois países completamente diferentes, embora com a mesma origem, o mesmo povo.
Imagino que seria como dividir Santa Catarina em duas metades, usando um paralelo como referência. Eu ficaria dividido da minha família sulista; se entrássemos em conflito, eu poderia enfrentar meu irmão num campo de batalha.  É difícil imaginar algo tão estúpido, mas é isso que nos é mostrado de forma crua.
Na primeira batalha, um dos soldados, ao se ver sitiado pelo inimigo, questiona se valia a pena matarem uns aos outros por uma ideologia quando eles sequer tinham o que comer. De fato, a guerra parece ser mais lógica quando entre povos diferentes, mas a História está repleta de exemplos como o da Coréia.
Embora seja relatado a trajetória sul-coreana, tem-se o cuidado de mostrar que ambos os lados cometeram atrocidades. Quando o Sul invade o Norte com a ajuda dos US Marines, há um episódio em que eles estão prestes a executar prisioneiros recém capturados quando o irmão mais novo os interrompe, fazendo a óbvia comparação: eles eram tão cruéis quanto os comunistas.
Nos extras, fala-se que, embora houvesse um compromisso histórico, eles tiveram o cuidado de não fazer um documentário sobre a guerra. Realmente, é uma ficção que tem como cenário o conflito, mas esse embasamento dos fatos interfere na narrativa, sendo, na minha opinião, um dos defeitos do filme: tentar ser completo demais.
O longa tem quase duas horas e meia de duração e o diretor comenta que algumas cenas foram cortadas por falta de orçamento (!). O roteiro vai se perdendo à medida que tenta abraçar várias nuances da guerra, como a perseguição aos "comunistas" sul-coreanos, chegando ao "incrível" encontro dos irmãos, agora em exércitos rivais, lutando face a face em meio ao caos do paralelo 38.
Eu diria que o grande destaque são as atuações. Duas cenas são especialmente tocantes: a mãe desesperada correndo atrás do trem que, de uma hora para outra, leva os dois irmãos para a guerra; e o encontro final dos irmãos, na qual o mais novo, agora acompanhado da neta, revolta-se perante à recém descoberta ossada de seu irmão: "O que você está fazendo aqui? Você prometeu que iria voltar."
Assisti esse filme no domingo passado sozinho em casa saboreando um de meus vinhos prediletos, o argentino Finca La Linda - Tempranillo. Nunca imaginei que isso fosse ocorrer em meio a uma ficção cinematográfica, mas chorei como uma criança nesta cena final. Se você tiver um irmão e não se importar em ver "um pouco" de sangue, recomendo esta bela obra.

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