sábado, 4 de fevereiro de 2012

O SUS é o Meu Mundo

Eu costumava fazer um trocadilho com o site da agência de publicidade OneWG, www.osuleonossomundo.com.br, dizendo que gostaria de usar uma camiseta com a frase: "O SUS é o meu mundo". De fato, tenho estado inserido nele por nove anos e não tenho planos de deixá-lo tão cedo.
Ano passado, durante uma reunião de equipe, mostrei a música Isn't it a Pity do George Harrison e comentei que tinha orgulho de ser um funcionário público, pois não precisava tirar nada das pessoas, apenas contribuir para o bem estar delas. Em seguida, a enfermeira comentou que  amava seu trabalho, por isso recusara outras oportunidades de emprego aparentemente melhores para seguir carreira no serviço público.
Steve Jobs conta em seu discurso de Stanford que perceber que ele amava o que fazia foi o que o motivou a continuar no ramo da tecnologia após ser demitido da Apple. Identifico-me com isso, recentemente comentei com duas colegas: "Já que minha vida pessoal é uma tragédia, pelo menos no meu trabalho eu tenho que ser bom". A Medicina me motiva a ser alguém melhor, logo, amo o que faço.
Esta semana, um médico com quem iniciei amizade há alguns meses comentou que não esquecia uma frase que eu havia dito sobre trabalhar na Estratégia Saúde da Família: "Eu vou para o posto feliz e volto para casa feliz.". Tenho sorte, pois acredito que esse não seja um sentimento comum da modernidade.
De vez em quando, alguém me pergunta se eu ainda não "enchi o saco". Logicamente, minha resposta é não. Proporcionar um atendimento de qualidade onde não se espera qualidade é a minha forma de seguir uma dica simples, porém poderosa: "Dê sempre mais do que as pessoas esperam". Dormir à noite sabendo que meus pacientes estão gratos não tem preço, assim como ter "o meu lugar " no mundo.
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Após três anos de formado, após trabalhar em seis prefeituras catarinenses, tenho algumas concepções gerais sobre o Sistema Único de Saúde:
1- A demanda por atendimento médico é superior a oferta, por isso cada cidade cria mecanismos para diminuir a demanda, geralmente limitando o número e o horário de atendimento. Frequentemente isso é justificado com a idéia de que o atendimento médico não é o foco da ESF. Isso pode até ser verdade, mas para mim é bastante óbvio que uma pessoa doente procure um médico, é isso que eu desejo para mim e para minha família. Em pesquisa realizada recentemente com usuários do SUS, a falta de médicos foi citada como um dos principais problemas enfrentados.  
2- Embora um grande número de estudantes se formem todos os anos em Medicina, a maioria deles não deseja trabalhar como clínico geral nas Unidades Básicas de Saúde. Além de não ser um trabalho fácil, a remuneração costuma ser menor em comparação ao atendimento especializado, principalmente no setor privado. No entanto, acredito ser comum médicos trabalharem na Atenção Básica por falta de opções, o que explica a má qualidade de alguns serviços. Durante aula para o curso de Medicina da UFSC em 2003, o professor Marcos da Ros, ao comentar a implantação do PSF no estado, disse que o que fazia diferença nos lugares onde o programa funcionava era justamente a crença ideológica dos profissionais envolvidos.
3- A demanda por exames também é superior à oferta, o tempo de espera pode ser longo, o que faz com que muitos usuários paguem pelos exames em clínicas particulares. Em casos urgentes (por exemplo, suspeita de câncer), um mecanismo encontrado por médicos para realizar gratuitamente exames de alta complexidade é a internação hospitalar. Uma tomografia computadorizada, que ambulatorialmente demora em torno de seis meses, pode ser feita em um ou dois dias dentro de um hospital. Funciona, mas um leito é ocupado de forma desnecessária.
4- As prefeituras compram os medicamentos através de licitação, consequentemente, são disponibilizados os remédios mais baratos do mercado. Teoricamente, todo medicamento é fiscalizado e tem sua eficácia comprovada, mas como explicar que o mesmo fármaco possa ter uma variação no preço de 500% dependendo do laboratório que o fabrica? Você preferiria tomar uma Fluoxetina de R$15 ou uma de R$100? Já ouvi relatos de diferença na eficácia de antibióticos, anti-hipertensivos, ansiolíticos e antidepressivos, em diferentes cidades.
5- Com exceção dos médicos, a maioria dos funcionários da saúde têm seus salários defasados, o que é, no mínimo, desmotivante. Num mundo regido pela lei da oferta e da procura, somente profissionais em falta no mercado parecem ser valorizados pelos administradores, o que pode interferir diretamente na qualidade do serviço ofertado.
6- A maior parte das decisões administrativas se encontram em poder das prefeituras, assim, a maioria dos problemas podem ser amenizados dependendo da "vontade política" local. Em outras palavras, a qualidade do serviço de saúde depende de escolhas simples realizadas por quem está mais próximo da população. Esta, por sua vez, tem maior proximidade com seus prefeitos e vereadores que, através do voto direto, são elegidos. Já trabalhei em cidades compromissadas em fazer o melhor possível, mas também em cidades que sequer disfarçavam suas intenções de oferecer um serviço medíocre. Por bem ou por mal, a política faz grande diferença.
7- Apesar das óbvias limitações, eu costumo dizer que "há vinte anos, o SUS nem existia". Impulsionado pelo crescimento econômico do país, é inegável que hoje exista uma estrutura razoável para atender a população que, em sua maior parte, depende do sistema público. Considero-me parte ativa dessa construção, por isso procuro manter meu foco nas possibilidades do futuro em detrimento das limitações do presente. Em vinte anos, quem sabe, terei um pequeno legado.
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          "Ora, se não eu, quem mais vai decidir o que é bom pra mim? Dispenso a previsão. Se o que eu sou é também o que eu escolhi ser, aceito a condição." O Velho e o Moço, composição de Rodrigo Amarante lançada pelos Los Hermanos em 2003, no álbum Ventura.

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