Trabalho em uma cidade com cerca de 8000 habitantes; atualmente, sou responsável pelo atendimento do "interior", que abrange em torno de 90% do território municipal. Muitos pacientes são impossibilitados de ir até as unidades de saúde, então vou até eles. Nesta última semana, fiz quatro visitas domiciliares.
A primeira foi para uma idosa com uma úlcera crônica em uma das pernas, segunda ela, "há quarenta anos". Ela morava com o marido, também idoso. Viviam em uma casa simples de madeira, ou melhor, sobreviviam. Era evidente que eles necessitavam do auxílio de alguém mais jovem para os afazeres domésticos e para os cuidados de saúde. Infelizmente, essa situação de abandono é bastante frequente, principalmente para os mais humildes.
Eu já tinha feito uma visita prévia ali, ela estava estável, então não havia muito o que fazer clinicamente. Apesar disso, quando estávamos de saída, ela me ofereceu uma nota de R$100, pois "você sempre vem me ver!". Surpreso, informei que mesmo que eu quisesse aceitar eu não poderia, e que tanto eu quanto a técnica e a agente de saúde estávamos sendo pagos para aquilo. Ela continuou insistindo, mas teve que se contentar comigo levando algumas balas que ela mantinha para as visitas. No carro, foi comentado que eles normalmente pagavam quando iam ao médico, por isso achavam estranho eu ir até lá e não receber nada. "Pois é, mas os tempos mudaram, eles vão ter que se acostumar", respondi com satisfação por poder dizer isso.
Em seguida, fomos ver outra paciente idosa, que tinha um quadro muito mais grave: câncer de vias biliares em estágio terminal. Era bem cuidada pelas filhas, estava medicada e não tinha queixas, mas era evidente a sua fragilidade. Ao deixar o quarto, a filha me perguntou quanto tempo mais ela tinha. É uma pergunta comum, minha resposta tende a ser suave: "ninguém pode prever o futuro, ela tem uma doença grave e incurável, mas está estável e muita coisa ainda pode acontecer". Essa lição, ao menos, eu aprendi:
"Uma coisa é certa: não lhe cabe a tarefa de vestir a toga negra e, assumindo a função de juiz, aniquilar a esperança de qualquer paciente... esperança que chega a todos nós." William Osler, citado no primeiro capítulo de Harrison - Medicina Interna 15a ed.
O terceiro paciente também tinha um câncer terminal, sentia muita dores e eu sequer conseguia entender suas poucas palavras. Precisava de cuidados constantes, usava fraldas e tinha úlceras de decúbito. Ao contrário da paciente anterior, havia negligência dos filhos que estavam em conflito sobre quem deveria lidar com o "problema", que se prolongava há meses sem previsão para terminar. O sofrimento na casa era evidente, sendo compreensível que a família estivesse cansada. No entanto, eu nada poderia fazer para "resolver" o caso, podendo apenas oferecer algum conforto pela minha disponibilidade.
A última visita ocorreu no final da tarde de sexta-feira. Justamente nesse dia a unidade estava sem o carro da prefeitura, então me disponibilizei para fazer a visita com meu carro. A enfermeira, sorrindo, comentou que isso era algo inédito (não para mim, que fiz isso em quase todas as cidades em que trabalhei). Acredito que tenho uma dívida moral com a população brasileira, que custeou minha cara formação e, assim, permitiu que eu comprasse o meu veículo logo após formado.
Era uma paciente jovem, havia consultado um dia antes na emergência com quadro de cólica renal, mas no dia seguinte evoluiu com febre. Encontrava-se na cama debaixo das cobertas em meio a um dia ensolarado de verão, era óbvio que estava desenvolvendo um quadro de infecção renal. Senti-me realmente feliz por ter feito a visita, pois pude iniciar o antibiótico que evitaria maiores complicações. Missão cumprida, por enquanto.
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Em 2007, fui convidado por uma vizinha a palestrar sobre o curso de Medicina em seu colégio, num evento com palestrantes de diversas áreas. Uma das coisas que eu falei para os jovens foi que minha vida não era mais fácil por eu ter escolhido ser médico, mas que com certeza ela era muito mais digna.
Não é fácil fazer visitas domiciliares, mas com certeza dignifica a minha vida.
Tenho orgulho de ter um irmão como tu! Parabéns por exercer essa profissão com tanto amor!
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