Esta resenha foi escrita por meu irmão mais velho. Ele que, muito antes de mim, já encantava as professoras com suas redações.
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O filme retrata bem a falibilidade humana em face das dificuldades que o sistema contemporâneo e globalizado emprega. Muito embora o enredo se passe na cidade de Londres, cuja realidade se afigura bastante diferente da brasileira, notadamente a do nosso Estado de Santa Catarina, tem-se que muitas lições podem ser tiradas do filme.
O personagem vivido por Chiwetel Ejiofor, chamado Okwe, um médico e imigrante nigeriano em situação irregular em Londres, desde o início demonstra condutas incomuns da maior parte dos seres humanos de nossa sociedade. Com diversos empregos – recepcionista de hotel, taxista, “consultor” de portadores de doenças sexualmente transmissíveis atendidos nos subúrbios londrinos -, tem-se que Okwe luta para aferir o dinheiro suficiente para sobreviver naquela cidade, bem como para poder voltar ao seu país de origem e rever sua filha.
Por sua vez, a personagem interpretada por Audrey Tautou, de nome Senay, tem em comum com Okwe o fato de também ser imigrante ilegal (nacionalidade turca) na cidade de Londres, cujo sonho é ir residir nos Estados Unidos e trabalhar no estabelecimento comercial de uma prima.
A diferença entre os dois é que ela faria qualquer coisa – mesmo que ilegal – para conseguir regularizar sua situação clandestina na Inglaterra e obter o visto para a tão sonhada vida norte-americana. Okwe, em contrapartida, jamais agiria ilegalmente, mesmo tendo que trabalhar semanalmente sem poder dormir e se escondendo incessantemente da polícia contra imigração da Inglaterra.
O ponto nevrálgico do filme aparece quando o empregador de Okwe, de nome Juan, funcionário do mesmo hotel, descobre que ele é médico e, diante disso, começa a chantageá-lo para que ele passe a fazer as retiradas clandestinas de órgãos dos imigrantes ilegais em Londres - que cedem seus rins para obterem documentos falsificados a fim de poder residir e trabalhar livremente na cidade londrina.
Okwe nega veementemente, demonstrando ser absurda tal prática de Juan, que explora as “vidas sem opção” dos imigrantes ilegais de Londres para enriquecer. A conduta de Okwe, mesmo estando numa situação que muitos não aguentariam, é exemplar, visto que, em cedendo às chantagens de seu superior, poderia residir tranquilamente em Londres, não tendo mais que se submeter à exploração de trabalho bem como às jornadas extremamente longas na direção de seu táxi.
O que se colhe do filme é saber até que ponto “o certo” deve ser praticado. Até que ponto podemos e devemos agir de forma correta. Há limites?
O filme explora muito bem isso. Não obstante Okwe tenha deixado nítido que jamais faria a remoção ilegal de órgãos, tem-se que ele se viu sem opção quando Senay - pessoa com quem construiu amor e afeto – se dispôs a “vender” um dos seus rins. Sabedor que ela correria sérios riscos de vida ao se submeter ao procedimento cirúrgico clandestino, Okwe se propôs a integrar a organização criminosa de Juan e realizar a empreitada.
Surpresa nos traz o filme com o desfecho da história, tendo o médico Okwe sedado Juan e removido um dos rins dele. Com posse dos documentos e vistos falsificados, bem como do dinheiro proveniente da venda do rim, Okwe e Senay puderam, enfim, deixar a vida sofrida de Londres e irem atrás dos seus sonhos.
Aí vem a questão. Vale a pena agir dentro da ética, fazer tudo corretamente, mesmo em situações de desespero em que não há saídas? Sem dúvidas que a resposta é sim. Agora, é possível, no mundo de hoje, agir assim? Há dúvidas.
Ao ver o filme, uma pergunta a nós mesmos é feita: no lugar de Okwe, faríamos o mesmo? Preferiríamos não realizar as cirurgias clandestinas e continuar sem teto, sem dinheiro, sem dormir, trabalhando 20 horas por dia? Difícil responder honestamente.
Muitos dizem “o mundo é dos vivos”, “bonzinho só se f...”. Não cremos assim. Vivemos não para nós mesmos. Vivemos para poder deixar algo de bom para o próximo. Vivemos para que as nossas condutas possam servir de bom exemplo para os outros. Ninguém quer ser um Maluf. Mas todos gostaríamos de ser um Okwe, mesmo sabendo que não seríamos.
Isso porque ao comer “o pão que o diabo amassou” e não ceder ao que é errado, Okwe certamente passa orgulho aos telespectadores do filme. Um herói moderno. Sua conduta dá vontade de dizer “Okwe é o cara”. Problema maior é saber que não temos ao nosso redor pessoas com a coragem e a integridade de Okwe. Flagrantemente qualquer um do nosso meio cederia às chantagens de Juan, a fim de extirpar o sofrimento. Estaríamos todos errados? A resposta é íntima. Nossa consciência é quem nos julga.
Nossa sociedade carece de exemplos como o de Okwe. É normal em nosso país ser corrupto. Ocorre que Okwe se corrompeu por amor, não por ganância. Aí temos o limite. Por amor, qualquer coisa bela e suja é possível. Correta ou incorreta, cada um sabe de si. Exemplos para os outros? Difícil, mas não impossível.
O filme é muito bom. Apesar da história se passar em Londres, abre espaço para debater a imigração em qualquer país. Tem uma crítica em www.artigosdecinema.blogspot.com/2014/05/coisas-belas-e-sujas-dirty-pretty-things.html
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