No dia em que minha avó foi sepultada, estávamos na sacada do apartamento do meu avô, quando meu tio comentou que, após ter ido apenas duas noites no clube do poker, seus colegas de jogo queriam "fazer uma estátua" em minha homenagem. Um outro tio enfatizou que isso não seria surpresa mesmo que eu tivesse ido apenas uma vez lá. O curioso é que eu ganhei naquelas duas noites, mesmo assim, meus adversários, aparentemente, gostaram da minha presença.
Uma lição que aprendi nos anos de carteado com meus familiares é: se você está ganhando dinheiro em uma mesa, deve ser educado com os outros jogadores. No clube do poker, dificilmente fazia algum comentário quando ganhava; quando perdia, frequentemente elogiava o adversário, às vezes, sincero: "Jogasse bem." Nas duas noites, tive embates homéricos com um homem de cerca de 35 anos; além de ser agressivo nas apostas, ele costumava provocar.
Na primeira noite, ao se deparar com mais um all-in meu, ele me perguntou: "Você não tem medo de perder todas essas fichas?!" "Não." Pensei comigo mesmo que aquela quantia não faria muita diferença no meu orçamento, o que talvez não fosse verdade para eles; sem dúvida, essa me era uma vantagem. Apesar da tensão entre nós dois, só tivemos o prazer de matarmos um ao outro no segundo domingo que apareci no salão.
No primeiro all-in, ele levou a melhor: flopei uma trinca e ele uma sequência, ele apostou, alguns desistiram e dei all-in. Mesmo com o "nuts" (melhor jogo possível), ele ainda se mostrou surpreso e demorou para cobrir minha aposta (ao meu ver, uma óbvia demonstração de fraqueza). Ao ganhar a rodada, ele citou um jogador de poker que eu não conhecia, sugerindo que eu deveria ter apenas apostado alto, não dado o all-in.
Na verdade, não teria feito diferença alguma; naquelas circunstâncias, a aposta máxima era inevitável. Porém, educadamente, silenciei; o crupiê, que administrava o clube, ironizou a provocação comentando que "o fulano vai abrir um couching..." Pego de surpresa, ri naturalmente da piada e tive a agradável sensação de ser bem-vindo ali; como já aconteceu algumas vezes ao longo da minha vida, eu sequer precisei me defender.
Praticamente na última rodada, flopamos um flush draw: eu tinha o ás, ele o rei. Ele apostou, cobri a aposta, no turn veio o nosso flush: ele aposta, vou all-in, ele paga sem hesitar, jogando as fichas lentamente na mesa, olhando nos meus olhos. Por um instante, confirmo mentalmente que eu tinha o nuts: seria impossível ser vencido. Mostro minhas duas cartas de espadas, o ás reluzente. Tomado pela emoção, ele se levanta e sai rapidamente do recinto, provavelmente para fumar mais um cigarro. Era o fim da noite.
No carro, meu tio comenta, rindo, que tinha gente ali querendo meu rim. Ele explica que meu rival apostava alto e tinha sorte, mas eu conseguia ter mais sorte ainda. Se usarmos o poker como uma analogia, eu diria que, se você for educado com a vida, talvez ela lhe presenteie com alguns golpes precisos de sorte. Depois de grandes perdas, grandes ganhos são possíveis, basta assumir os riscos e continuar jogando.
O jogo não pode parar. Sejamos educados com a vida. Grande lição!
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