Há alguns meses, encontrei este DVD sendo vendido por um preço promocional onde costumo tomar café; apesar de ser alvo de críticas negativas, comprei-o pensando em mais uma possível temática para o blog. A história fantasiosa pode ser difícil de ser aceita, mas, como em outros longas do incomparável M. Night Shyamalan, é possível tirar grandes lições. Basta estarmos atentos.
"Todos os seres têm um propósito" é umas das frases da Dama. A descoberta desse propósito pode demorar e está sujeita a erros, como o próprio filme demonstra. Identifico-me com dois personagens: Vick (interpretado pelo próprio Shyamalan), um aspirante a escritor; e Cleveland, o protagonista que abandonou a carreira médica e agora trabalha como zelador no condomínio onde a trama se desenrola.
O papel de Vick é escrever um livro que mudará o mundo ao inspirar um futuro líder americano, mas o projeto "empacou" e a missão dela é inspirá-lo, bastando apenas que eles se vejam. Com o dom de ver o futuro, ela confirma que a publicação do livro provocará polêmica e, por isso, o autor será assassinado. Ele termina a obra mesmo assim. "Vocês estão todos conectados, uma ação pode um dia afetar a todos."
Cleveland abandonou a Medicina após sua esposa e filha serem mortas por um homem que invadiu a casa em sua ausência. Segundo a Dama, foi quando ele deixou de ser feliz. Ela o lembra que ele não está tão distante de seu nobre passado: "Você ajuda todos que vivem aqui." Embora ele não quisesse mais curar, esse era um atributo inerente ao seu ser; no auge da narrativa, após ela ser gravemente ferida, ele a salva milagrosamente.
Nos comentários finais do extra, a atriz Bryce Dallas Howard sintetiza a moral da obra:
"Em toda história existem os heróis, existem os guardiões e os curadores... Todos têm isso em suas vidas e, até que procurem, frequentemente não percebem que estão destinados a serem cercados por essas pessoas."
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Passei o domingo de Páscoa com meu avô na casa de um tio que mora a alguns quilômetros de Porto Alegre. Há uns 5 anos, visitei-o e tenho a lembrança dele comentar que eu era o único sobrinho que o visitava, o que provavelmente ainda é uma verdade. Suas quatro filhas, todas acadêmicas de Universidades Federais, também estavam ali, o que tornava o evento mais especial. Durante o longo jantar, algumas dúvidas médicas surgiram e eu habilmente provei a minha formação.
No outro dia, durante o café, minha tia comentou que uma de minhas primas lhe dissera na noite anterior: "Como é bom ter um médico na família!" No final da manhã, enquanto saía da cozinha para arrumar as malas, ouvi-a reparar, mais uma vez, que a minha voz era igual a de meu irmão mais velho. Outra pessoa que fala isso é um amigo antigo dele, que eventualmente encontro em nossa cidade natal. Talvez inconscientemente eu tente imitar a sua maneira de falar.
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Esse tio é graduado em Direito e está vendo os procedimentos para que meu avô consiga receber, ao menos em parte, a aposentadoria de minha avó. Um tio odontólogo, especialista em próteses, fez com que ela mantivesse um sorriso perfeito por toda a vida. Meu pai, no seu papel de irmão mais velho, ficou incubido de reexplicar para um de meus tios os motivos dela ser transferida; o tio que, além de ser o mais emotivo, era o único que morava na mesma cidade que ela.
Quando meu pai concluiu que essa decisão caberia aos médicos, ele não olhou ou fez qualquer menção a mim. Imagino que essa atitude visou enfatizar o aspecto técnico que a situação demandava, diminuindo a óbvia influência de eu ser seu filho; o importante era a graduação em Medicina, isso justificava o meu poder. "Cada um no seu quadrado" foi a conclusão seguinte, também lembrando que "cada macaco no seu galho."
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Dois dias antes de minha avó falecer, comentei com meu primo que seu pai não gostara da idéia de transferência, mas que várias vezes foram explicadas as razões. Ele riu e respondeu que, mesmo que fossem dados mil motivos, ainda assim seu pai não concordaria. Mais tarde, após eu afirmar que o primo era o "cara" da casa, ele acabou confessando que realmente era a pessoa mais racional do núcleo familiar.
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