No filme A Promessa (The Pledge, 2001), Jack Nicholson interpreta um policial que, pouco antes de se aposentar, promete para uma mãe que encontraria o assassino de sua filha. Essa promessa resulta na ruína do protagonista, sentenciada por um detalhe do destino. Recordo-me de uma frase dita por um tio ano passado: "A vida são detalhes." Ele se referiu, possivelmente, à questão de sorte ou azar que cada um está sujeito; uns aparentemente são bem-aventurados, outros não.
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Semana passada, atendi um caso potencialmente grave na unidade básica. Uma adolescente iniciara com cefaléia e evoluíra com um episódio de vômito e confusão mental importante. No consultório, cheguei a perguntar se ela tinha algum retardo mental e me foi respondido seguramente que não; quando ela começou a fitar a parede com o olhar perdido, a mãe se desesperou, questionando sem resposta: "Meu Deus, por que você está assim?!"
Instantes depois, a paciente começou a inclinar a cervical para trás e para a esquerda, típico de uma crise convulsiva parcial; levantei-me, informei que ela estava convulsionando e chamei as enfermeiras. Enquanto era feita a medicação, ela teve uma nova crise e foi solicitado que a mãe se retirasse da sala de procedimento. Notei uma certa rigidez de nuca, meu colega médico concordou que existiam sinais meníngeos e comunicamos o hospital para o encaminhamento.
Ainda na unidade, a mãe me pergunta se ela iria ficar bem. Sem pensar muito, respondo que sim, ela insiste chorando: "Você me garante?" Era óbvio que eu não poderia garantir nada, mas não consegui negar o seu pedido. Acompanhei-as na ambulância e passei o caso pessoalmente para o plantonista que, com uma máscara para evitar um possível contato meningocócico, desabafou após abrir os olhos da paciente, que se moviam de forma desordenada: "Isso não é bom."
Ele ditou a prescrição para a enfermeira, pediu uma tomografia e informou que depois iria fazer a punção lombar na UTI. Ao sair da sala de emergência, escutei seu último pedido: "Quero conversar com a mãe." As noticias não seriam nada boas, pensei comigo mesmo. Segunda de manhã, tomando café na cozinha da unidade, perguntam-me do caso; respondo que não tive notícias, mas que ela poderia até estar morta, vítima de um acidente vascular ou uma meningite.
À tarde, a agente de saúde me informa que a garota estava bem, os exames não mostraram nada e ela se recuperara totalmente. Na terça-feira, a paciente volta ao consultório com a família; segundo a mãe, apenas para a agradecer o meu atendimento. A jovem, agora lúcida, conta que, naquele dia, vira pontos luminosos antes da cefaléia, típico de enxaqueca (uma familiar acrescentou que sentia o mesmo antes das crises). Nada demais, tivemos sorte, pode-se dizer.
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