domingo, 8 de dezembro de 2013

Doutor Delmar - parte 2

Penso que duas características marcantes dele sejam a humildade e um rigoroso código moral, demonstradas no seguinte trecho:

"Por falar em SUS como causa ou emprego, há uma situação que ocorre com muita frequência e que merece ser citada, que é a dupla militância, ou seja, o médico trabalhar no sistema público e privado. Sempre defendemos que essa prática é desaconselhável, porque uma das duas atividades, fatalmente, seria relegada a segundo plano. Fomos coerentes com essa ideia durante trinta anos mas, recentemente, durante um pouco mais de um ano, também trabalhamos em uma ESF e, depois do expediente, na nossa clínica particular, com consultas e exames de ultrassom. Não deu certo. Conseguimos dar conta de toda a demanda de pacientes que procuravam por consulta médica nos dois postos de saúde sob nossa responsabilidade e realizávamos outras tarefas, como as atividades com grupos específicos de pacientes e algumas visitas domiciliares. Porém, faltava a criatividade, o "algo a mais", como a preparação de material educativo, o trabalho com as crianças na escola, a atenção maior à vovozinha acamada, a palestra na comunidade à noite, em horário mais apropriado para a participação de todos, o estudo em casa à noite, etc. Concluímos que, realmente, o médico que atua na Atenção Básica à Saúde deve dedicar-se exclusivamente ao serviço público." www.arevolucaodosplebeus.com.br Página 154

Ele se sentia culpado por "militar duplamente", ao comentar isto com um colega nosso em comum, compartilhei: "Já teve época em que eu me sentia culpado por ganhar bem, hoje eu acho que eu ganho o justo pelo meu trabalho, em alguns anos, provavelmente vou achar que ganho menos do que mereço..." Ele riu. Algo que fascina no doutor Delmar é sua resistência ao tempo: com três décadas de provações, ele conseguiu se manter firme aos seus altos padrões éticos.
Achei surpreendente sua intenção de fazer palestras noturnas além do expediente pela manhã e tarde, ao comentar com uma colega nossa, ela me relatou que essas palestras chegaram a ocorrer! No outro dia, um colega confessou que ficou até 23h em um desses encontros; ao se deparar com meu espanto, ele tentou amenizar informando que essa jornada noturna era revertida em folga. Respondi que trabalhar até esse horário não valeria a pena nem que tivesse direito a uma semana de folga. Ele riu.
Uma das perguntas que fiz sobre o doutor Delmar foi sobre o seu carro. Descobri que tinha um carro simples "não-novo", o que achei fantástico.  Em seu livro, ele faz um resumo econômico dos anos em que atuou na distante Rondônia:

"Ao final dos primeiros nove anos de carreira, não possuíamos outros bens além de um carrinho popular. Tínhamos uma magérrima poupança, que Collor nos fez o favor de confiscar. Portanto, iniciamos o décimo ano praticamente como o primeiro: sem nada. Sem nada, não! Com o coração cheio de alegria e com uma vontade enorme de poder voltar atrás e fazer tudo de novo." Página 162

Uma característica do profissional com "perfil para ESF" (termo que tenho escutado com certa frequência ao longo dos anos) me parece ser uma ambição material modesta. Neste caso, é interessante como a simplicidade parece afastar o profissional do serviço público; imagino que se ele ambicionasse carros confortáveis, viagens, comidas e bebidas requintadas, mesmo que um pouco apenas, ele veria no serviço público uma boa oportunidade. Mas sua ambição era outra, caso contrário, eu sequer o teria conhecido.

"Quando retornamos ao sul, no início de 1990, após nove anos, trouxemos de Rondônia um casal de filhos já meio criados. A parte da infância que passaram em Rondônia, convivendo com as pessoas simples, bondosas e carinhosas de lá, contribuiu de maneira decisiva para que hoje ambos sejam adultos equilibrados, críticos, solidários e, principalmente, sem preconceitos. Jamais serão confundidos com "ricos e cultos". Não pode haver realização maior para um pai ou uma mãe." Página 162

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