Eu costumo expressar abertamente o desejo que meus futuros filhos façam Medicina, sendo clara minha satisfação pelo ofício. Uma das histórias que mais me chamaram a atenção foi a de que o doutor Delmar se opôs à vontade do filho de ser médico, assim, o jovem acabou seguindo outro caminho. Se eu pudesse fazer uma única pergunta ao doutor, seria: por que você não quis que seu filho seguisse seus passos?
Ao expor essa dúvida durante o horário de almoço, informaram-me que o doutor Delmar se ressentia com a atitude mercantilista da classe médica. Essa resposta nunca me convenceu plenamente, pois seu sucessor não seria necessariamente "corrompido" pela profissão. Ainda assim, é possível encontrar em seu livro trechos que embasam seu desgosto pela Medicina:
"A dificuldade foi a oposição desleal dos médicos, que consideravam o sistema público um concorrente dos seus negócios. Encastelados em seus consultórios e no hospital, procuravam impedir qualquer progresso na implantação de programas de saúde pública que pudessem diminuir a sua clientela particular (...) Médicos até concordavam em dar atendimento nos postos de saúde, apesar do baixo salário da época, porém, com a clara intenção de garimpar entre os pacientes aqueles com melhor poder aquisitivo, para desviá-los ao consultório particular." www.arevolucaodosplebeus.com.br Página 153
Em 2010, trabalhei em uma cidade de 17 mil habitantes cuja maior parte dos médicos "atuavam duplamente" no ESF e em consultórios particulares. Meses depois, relatei para um amigo recém-formado que ele deveria evitar trabalhar em locais com este perfil, pois ele seria visto como um concorrente, não como um colega. Apesar dessa experiência desagradável, acabei descobrindo que essa prática não era tão comum em outros municípios.
Doutor Delmar também é um crítico da escola médica tradicional, que tende a formar profissionais já especializados ao invés de generalistas. Quando entrei na UFSC em 2003, o curso de Medicina acabara de sofrer uma reforma curricular significativa, visando justamente formar bons generalistas. Embora eu considere a iniciativa bem-sucedida, entendo que a verdadeira dificuldade seja convencer o acadêmico a seguir carreira como clínico-geral.
"O perfil do estudante de medicina brasileiro é do jovem de classe média, que não escolhe essa profissão por idealismo, mas por status e por boa remuneração, buscando conforto e qualidade de vida. Não quer ser médico para ir pisotear barro no interior, prefere as alvas e assépticas clínicas e hospitais das cidades maiores. É coerente, então, que pretenda seguir uma especialidade que lhe permita permanecer nos grandes centros. É uma constatação, não é uma crítica, já que cada um tem o direito de construir sua vida como achar melhor." Página 155
Durante a adolescência, conheci uma família cujo patriarca, médico gaúcho, dizia aos seus dois filhos que, se eles se formassem em Medicina na UFRGS, suas vidas seriam um sucesso. Anos mais tarde, ambos se formaram na renomada instituição e hoje colhem os frutos de um caminho árduo, mas repleto de honra. Acredito que a família escolheu a Medicina por vocação, não por status ou ambição material. Assim como o doutor Delmar, que nos surpreende com uma postura diferente em relação ao filho.
Nenhum comentário:
Postar um comentário