domingo, 27 de outubro de 2013

300 (2007)

Apesar de ter um compromisso histórico secundário e um ar fantasioso, eu diria que este é um de meus filmes prediletos. Baseado na obra em quadrinhos de Frank Miller e Lynn Varley, levanta várias questões filosóficas que ainda hoje se mostram relevantes. Ambientada em 480 AC, trata-se da defesa grega contra a poderosa invasão persa, na segunda guerra médica.
Militarmente, Esparta era a cidade líder e Xerxes sabiamente decidiu invadir a Grécia no período das festividades religiosas da Carnéia, que tornava um sacrilégio Esparta entrar em guerra. Além disso, era época das Olimpíadas, onde as cidades gregas paravam de guerrear entre si para competir nos esportes (sem dúvida, um grande legado para a humanidade).
No Oráculo de Delfos, foi profetizado que o sacrifício de um rei seria necessário para evitar o saque da cidade grega; assim, Leônidas, acreditando ser a defesa de Termópilas uma missão suicida, escolheu apenas espartanos com filhos vivos para o acompanhar. Trezentos era o número de soldados da guarda real de Esparta.
A estratégia de guerra foi bem arquitetada entre as cidades gregas: Atenas impediria o avanço pelo mar, enquanto Esparta impediria o avanço por terra, ambos em pontos estreitos onde a superioridade numérica persa faria pouca diferença. Leônidas teve a missão de recrutar mais gregos no caminho até Termópilas, soldados de outras cidades que seriam atacadas antes de Esparta caso os persas avançassem.
Estima-se que 7000 gregos defenderam o estreito caminho entre as montanhas e o Meditarrâneo. Os soldados de cada cidade formavam unidades que se revesavam entre si contra os persas, dois ataques de 10.000 homens foram repelidos no primeiro dia de batalha. Já no segundo dia, o morador local Efialtes informou Xerxes de um caminho paralelo que encurralaria o pequeno exército inimigo.
No terceiro dia, sabendo que seriam fatalmente cercados pelo invasor, a maior parte dos gregos recuou, enquanto cerca de 1500 permaneceram bloqueando os "portões quentes" (no filme, apenas os espartanos fazem este último bloqueio). Embora tenha-se criado a idéia de que um soldado de Esparta jamais poderia recuar, é possível que esse sacrifício tenha sido realizado como mais uma estratégia lógica de guerra.
Caso todos os gregos recuassem, a cavalaria persa teria caminho livre para os alcançar em campo aberto, onde a superioridade numérica seria decisiva. Caso todos permanecessem em Termópilas, o desfecho seria o mesmo pois estariam encurralados. Ficando apenas uma parte dos gregos para a defesa do estreito, milhares de soldados foram polpados e assim puderam participar de futuras batalhas.
Imagino que, se o exército espartano estivesse presente em sua totalidade, não haveria possibilidade dos persas avançarem por Termópilas. Mesmo com a traição do "Judas grego", com espartanos guardando o caminho paralelo, os persas não conseguiriam contornar pela montanha. A guerra poderia acabar ali, mas não acabou por conta de uma tradição religiosa que durava nove dias ao ano.
Ao pensar sobre a separação entre estado e religião, logo percebo que não estamos tão longes da Grécia antiga. Racionalidade bem exemplificada pelos 300 que quebraram a norma de não guerrear durante um importante "período sagrado". A lógica deve prevalecer nas decisões sociais, parece sensato pensar assim, especialmente em tempos de crise. Eis um dilema que pode ser considerado eterno na trajetória humana.

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"Os 300 de Esparta" foi o primeiro filme lançado sobre o tema, em 1962, no auge da guerra fria. Simbolicamente, representou o embate entre capitalismo e socialismo: os espartanos defendiam um modelo de liberdade contra um modelo escravocrata. Essa guerra ideológica persiste ainda hoje se pensarmos nas divergências políticas entre direita e esquerda; um exemplo é a atual política nacional de distribuição de renda, que claramente divide opiniões. 

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Há algumas semanas, durante um churrasco com amigos, chegou-se ao assunto dos médicos formados no exterior. O aniversariante comentou que achava que todos aqueles que queriam ser médicos tinham o direito de se formarem médicos. Um odontólogo que acompanhara o comentário logo respondeu: "Eu quero ser jogador de futebol. Todo mundo que quer ser jogador de futebol tem o direito de ser profissional?"
Pego de surpreso, o aniversariante apenas riu, não havia como responder a essa comparação. Era óbvio que apenas os mais habilidosos poderiam ter tão cobiçado ofício. Isso é de fácil entendimento, vivemos no país dos esportes e da liberdade, vivemos em uma meritocracia. Apesar disso, é curioso como também temos que enfrentar nossas guerras médicas. Filosoficamente falando, qual lado você defenderia?

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