Em 2010, trabalhei em uma pequena cidade do oeste catarinense, onde os gestores se mostravam insatisfeitos com a minha insistência em pedir mamografias. Mas eu não via outra alternativa quando a maioria das mulheres de lá desconheciam a necessidade desse exame preventivo. Um dia, fui informado que minhas requisições não seriam mais aceitas e, assim, pedi demissão imediata e nunca mais voltei a atender ali.
Desde então, sempre que eu vejo uma propaganda sobre a importância da prevenção do câncer de mama, eu lembro dos meus antigos chefes e me pergunto se eles também estão vendo a campanha. Será que eles se lembram de mim? Será que fiz alguma diferença? Ou será que eles continuam orientando os médicos a não solicitar mamografias de rotina?
Na época, relatei o episódio para meu supervisor dos últimos anos de graduação e ele comentou que eu era "muito corajoso". Penso que seja uma característica da minha geração, reconhecer facilmente as injustiças e se revoltar contra elas, mesmo que isso traga certa instabilidade e insegurança. Mudamos o mundo ao questionarmos os vícios que nossa sociedade mantém sob a idéia de serem comuns e, por isso, aceitáveis.
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Nesta semana, iniciei meus trabalhos em uma nova equipe e a enfermeira me informou, logo no primeiro dia, que ela mesmo solicitava as mamografias, conforme a indicação pela faixa etária. Lembrei-me de 2010 e com um sorriso afirmei que achava a iniciativa ótima. Hoje vislumbro um Outubro rosa, onde os esforços são somados e não diminuídos mutuamente.
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Ontem, enquanto ia buscar o jantar, mudei a rotina de escutar uma seleção no pen drive e optei pela rádio local. Escutei que, entre 2010 e 2012, houve um aumento nos exames de mamografia realizados pelo SUS de 37% na faixa etária de maior risco, entre 50 e 70 anos. Um aumento substancial que evidencia o enorme déficit da época e a atual conscientização dos profissionais envolvidos.
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