Sempre gostei de jogos de azar. Quando era pequeno, era comum passar as tardes jogando baralho com minha mãe. Todos os anos, quando a família de meu pai se reúne no interior do RS, o principal passatempo consiste em jogar cartas por horas a fio. Meus sogros também gostam de um carteado e virou costume jogarmos após as refeições.
Eu diria que um plantonista está sempre contando com a sorte, preso à expectativa de que tudo dará certo e transcorrerá tranquilamente. Assim como no jogo, desenvolvi a fama de ser "pé quente" nos plantões, embora obviamente ninguém esteja imune à força do azar. Eventualmente, todo mundo se dá mal.
Há três meses, faço plantões noturnos num dia fixo da semana em uma cidade de 18 mil habitantes. Semana passada foi relativamente tumultuado: um paciente que vinha transferido de outro hospital faleceu no caminho; outro teve um derrame cerebral pela manhã e, como não foi internado, apareceu à noite com esperada piora; uma senhora que havia sido atendida no dia anterior voltara com sinais de insuficiência respiratória; para completar, um atendimento no meio da madrugada interrompeu meu breve descanso.
Em contraste, o plantão dessa semana foi bem calmo. Nenhum caso grave que necessitasse de internação ou transferência, o último paciente do plantão veio à meia-noite e assim pude descansar até às 7h. Apenas despertei algumas vezes após sonhar que vinham me chamar para atender. Mesmo nas noites mais tranquilas, o sono interrompido me é uma constante, sendo impossível relaxar totalmente.
Decidi não fazer mais plantões a partir do mês que vem, embora ontem mesmo eu tenha lembrado para colegas de trabalho que eu já tomara essa decisão diversas vezes. Uma delas comentou: "É um vício, não?" Talvez. Gosto de pensar que a Medicina ainda é um trabalho nobre, que ainda vale a pena apesar dos dias infortunos. Assim como no jogo, não é pelo dinheiro.
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Um dos PAs que venho trabalhando nos últimos meses é referência para mais de 60 mil pessoas. Durante uma plantão diurno de 12 horas, por exemplo, é comum haver mais de uma centena de atendimentos. Apesar de serem dois plantonistas por turno, a demanda é incessante e geralmente meus colegas ficam surpresos quando digo que estou fazendo plantões ali.
Por outro lado, o lugar tem a melhor estrutura da região, com uma equipe muito competente. Não são só bons profissionais tecnicamente, mas sinto que realmente estão ali por vocação, dando um apoio sólido para que eu possa desenvolver meu trabalho com êxito. O ambiente é naturalmente inóspito, mas em conjunto atravessamos as horas mais difíceis; ali, nunca estou sozinho.
Uma das imagens passadas pela série norte-americana é a de que os profissionais de saúde realmente desejam ajudar e costumam dar o seu melhor pelos pacientes. A equipe do County General Hospital é admirável e, se na adolescência eu desejei fazer parte dela, hoje eu vivo essa emoção de tempos em tempos na vida real. Entre erros e acertos, costumo voltar para casa orgulhoso, como se fosse um protagonista/herói de ER.
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