"O poder da riqueza" foi uma das expressões que mais escutei neste feriado de Carnaval, em Garopaba. Com familiares bem-humorados que costumam ler meus escritos, várias oportunidades foram aproveitadas para lembrar do meu "poder", sempre com uma pitada de ironia que me fazia rir também.
Sei que é um tema polêmico e o considero um tabu em nosso meio. As pessoas fazem coisas terríveis por causa de dinheiro e ele, constantemente, é motivo de discórdia. Jesus pedia às pessoas que abrissem mão de seus bens e o seguissem, indicando que a evolução espiritual era oposta ao acúmulo de riquezas, sendo ele próprio um exemplo disso.
Apesar de parecer superficial, escrevo sobre a temática porque li a obra de T. Harv Ekel (Os Segredos da Mente Milionária). Seus ensinamentos ficaram "impregnados" em meu cérebro e, como muitas outras obras, mudou minha percepção de vida. Durante conversa com meu tio em Suzano-SP, minha irmã comentou algo sobre minha "genialidade", que lembrava o personagem médico House; eu relatei que quando lia ou assistia algo com atenção, mesmo que só uma vez, eu conseguia memorizar por longo tempo.
Li o livro por acaso, uma enfermeira que trabalhava comigo me emprestou e fiquei fascinado com o discurso fluente do autor. Não tenho nenhum exemplar, embora já o tenha comprado três vezes para dar de presente para amigos. Uma das idéias que assimilei foi a de que o dinheiro não muda as pessoas, ele apenas "amplifica" o que elas realmente são. Uma pessoa generosa se torna mais generosa quando enriquece, por exemplo.
Há alguns meses, visitei meu primo na época de seu aniversário e cheguei a pensar em lhe comprar algum presente, mas acabei optando por lhe dar a opção de comprar o que bem quisesse. Mas obviamente havia um grande obstáculo: como fazer a gentileza sem parecer ofensivo? Quase desisti, mas, sendo hábil com as palavras, assumi o desafio.
Perguntei-lhe se nosso avô já havia lhe dado dinheiro alguma vez. Surpreso, ele me respondeu com franqueza: "Ele já meu deu dinheiro várias vezes!". Eu sabia que a resposta seria essa e vi que essa lembrança específica também trazia um sentimento bom em meu primo. Como era esperado, ele inicialmente recusou o presente, mas acabou cedendo aos meus bons argumentos, confessando que realmente estava precisando para investimentos em seu negócio.
Há alguns anos, conversei com um amigo que acompanhara um casamento de orientais no exterior; ele comentou que os convidados não compravam presentes, cada um deixava um maço de dólares em uma caixa, que seria entregue ao casal. Acho esse costume bastante coerente em um mundo onde o dinheiro, sendo tabu ou não, é vital para que uma união perdure.
Ano passado, durante a festa de casamento de um amigo da época de colégio, aproximei-me do recém casado e perguntei se eu poderia colocar o presente no seu bolso. Com um sorriso, ele consentiu: "claro". Após fazer a entrega, expliquei-me com uma única frase: "É o presente mais útil que eu poderia lhe dar." Entendendo do que se tratava, ele me abraçou com força, emocionado e agradecido por eu estar ali.
Inevitavelmente meu avô paterno vem à tona quando eu penso em "riqueza". Sua bondade "amplificada" é incessante para filhos e netos, que usufruem de sua habilidade duradoura em lidar com dinheiro. Um exemplo a ser seguido, sem dúvida. Com uma lucidez afiada, ele comentou em Dezembro que odiava "gente miserável", após lembrar de conhecidos que não eram pobres, mas mesquinhos. Como diria Renato Russo, "não existe beleza na miséria".
Imagino que, ainda jovem, meu avô decidiu que não seria um escravo, seria um homem livre. Há 2000 anos, vivíamos em um mundo onde escravos mantinham os luxos do Império Romano; meu avô descende de africanos, trazidos para cá como escravos para manter os luxos dos portugueses. Ele sabia o que era escravidão e soube reconhecer as oportunidades para fugir dela; uma escravidão que persiste, ainda que disfarçada.
Já me basta ser escravo das minhas conturbadas emoções, não serei um escravo do mundo. Dizer isso abertamente faz parte desse longo processo, já que as palavras possuem forte influência na realidade que construímos. Quero ser livre, quem não quer?
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