domingo, 2 de setembro de 2012

Dois Lembretes


Aconteceram essa semana, após dois atendimentos.
O primeiro foi um senhor de 40 anos. Ao chamar o paciente anterior, notei que ele estava em pé, em frente ao consultório, apontando para o relógio com o dedo indicador. Imaginei se era alguma indireta, mas, como estava de bom-humor, não esbocei nenhuma reação. Ele, talvez envergonhado, caminhou em outra direção.
Ao atendê-lo, notei que se tratava de um humilde agricultor de origem européia, como boa parte da população local. Não noto nenhuma agressividade por parte dele e o atendo normalmente. Estava de bom-humor, tudo bem ele estar impaciente. Enquanto eu faço sua receita, ele pede um medicamento para o controle de convulsões, em uso há anos após "meu pai dar uma machadada na minha cabeça".
Ele diz isso abaixando a cabeça e apontando para a região parietal direita. Sua voz muda ao falar de seu passado, imagino que ele confiara em mim apesar de ser nosso primeiro encontro. O interior do estado é relativamente violento, sendo comum agressões com armas brancas. Pergunto se fora durante uma briga e ele me responde que não, seu pai sofria de demência. "Menos mal" penso comigo mesmo.
Em seguida, ele comenta que não gostara do atendimento de outro médico, mas que gostara do meu. Sua esposa trouxera seu filho no início da semana e também me elogiara. Imagino que nada disso aconteceria se eu estivesse mal-humorado, o que não é incomum.
Primeiro lembrete: não importa o que aconteça, não posso ser cruel com as pessoas.
* * *
No mesmo dia, atendo um garoto de 5 anos. Enquanto faço a receita, ele comenta algo com a mãe. Pergunto o que é e ela responde: "ele quer usar o carimbo, mas não pode, pode quebrar." Tento manter a seriedade enquanto continuo a escrever, cedendo após alguns segundos: "pode usar aqui nesse papel, segura bem no meio do carimbo." Essa foi a dica que recebi ao pegá-lo em dezembro de 2008.
Após o uso, comento "olha só" e mostro para a mãe, complementando: "perfeito." Pergunto o que ele pretendia ser quando crescesse e, após a óbvia resposta, dou a dica: "vai ter que estudar bastante." A mãe, orgulhosa, enfatiza: "é mesmo, vai ter que estudar muito."
Prefiro atender adultos, não tenho vocação para ser pediatra; mas confesso que, de maneira geral, consigo atender bem os pequenos. Segundo lembrete: posso não gostar de crianças, mas algumas gostam de mim. "Grandes poderes vêm com grandes responsabilidades."

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