sábado, 8 de dezembro de 2012

Amadeus (1984)


Eu diria que minha maior contribuição musical foi uma participação no final da música "Fim de Tarde" da banda Vizinhos da Glória. Durante as gravações em 2002, solicitei que a melodia se repetisse algumas vezes para que eu acrescentasse algumas guitarras. Eu achava a canção muito boa para ser tão curta e sentia que realmente poderia melhorá-la. O resultado: http://youtu.be/h0IZ5SlL_bg
Na época, um dos integrantes admirou-se após a minha gravação: "Não consigo entender como conseguisse criar isso de cabeça". De fato, eram duas melodias de guitarra distintas que, juntas, encaixavam-se perfeitamente. Eu não conseguia explicar a ocorrência, eu apenas sabia que as melodias seriam complementares e assim se sucedeu. A inspiração, além de efêmera, costuma ser inexplicável.
Neste multi-premiado longa de Milos Forman, nos é mostrado o talento de Mozart, que inflama a inveja de outro compositor da época, Salieri, narrador da trama. No início do filme, é feita uma provocação: muitos conhecem Mozart, mas quem conhece Salieri? Esse questionamento é o pontapé inicial para a narrativa que brilhantemente se inicia; antes de o conhecermos, já há um fascínio sobre ele e esse sentimento é partilhado pelo narrador.
Mozart aparece inicialmente como um jovial e alegre compositor de 26 anos, cuja única preocupação parece ser correr atrás (literalmente) de sua futura esposa, a bela Constanze. Mas essa ilusão logo se desfaz, dono de um ego enorme e ciente de seu talento, temos a impressão que Mozart conhece desde cedo seu lugar de destaque na História. Carismático, cativa-nos desde o início; ao contrário de Salieri, que fica atormentado ao conhecer o gênio: "Pareceu-me que eu estava ouvindo a voz de Deus, mas por quê? Por que Deus escolheu uma criança obscena para ser seu instrumento?"
Rebelde, Amadeus parece não se importar com a opinião de seu autoritário pai; muda-se para Viena, deixando-o em Salzburgo, e se casa sem o seu consentimento. Impossível não me identificar com o compositor; obviamente não tenho seu talento, mas nosso ego é equiparável e o temperamento, coincidentemente, também.
Em uma carta, o jovem tenta se explicar:  "Amado pai, recorda-se como você sempre me contou que Viena era a cidade dos músicos? Que conquistar este lugar é conquistar a Europa? Com minha esposa, eu posso fazer isso. Em breve, quando eu estiver bem de vida, você virá morar conosco e seremos muito felizes." Amadeus encontrara o amor, sua grande inspiração.
Gosto de uma cena que se inicia com Mozart compondo em uma sala, sobre uma mesa de sinuca, com música ao fundo. Ele é interrompido por Constanze, que vem chamá-lo para conversar com uma moça que oferecia seus serviços de doméstica gratuitamente (a mando secreto de Salieri). O pai discorda da condição de anonimato de quem a enviou e discute com Constanze. Mozart não interfere, volta para a sala, voltando a compor com a trilha sonora que magistralmente retorna.
É evidente que, para ele, a música era mais que um trabalho, era uma necessidade, uma válvula de escape. Mozart compunha porque precisava compor; Salieri amava a música e tinha grandes ambições, mas não era um compositor nato. Isso o enfurecia: "De agora em diante, Você (Deus) e eu seremos inimigos, porque Você escolheu como instrumento um garoto arrogante, desregrado e infantil, e me deu como recompensa apenas a habilidade de reconhecer a incarnação. Porque Você é injusto e mal, eu vou Te bloquear."
Interessante que Salieri tem uma relação dual com Amadeus: ao mesmo tempo que ele o odeia por não lhe parecer digno de tamanho talento, ele ama a sua música e esse parece ser o maior sentimento da narrativa. Por três momentos, Salieri é sincero quando seria perfeitamente compreensível que mentisse: quando Constanze lhe mostra secretamente composições inéditas do marido, Salieri confessa, atônito: "é miraculoso"; após um relativo fracasso de público, Mozart pergunta para Salieri o que ele achara de sua ópera e, hesitando brevemente, responde: "Eu achei maravilhoso", salvando a auto-estima do jovem prodígio; na noite anterior à morte de Mozart, Salieri confessa ao inimigo caído: "Nunca perderei nada que você escreva. Você é o melhor compositor conhecido por mim."
Trata-se claramente de uma ficção, há vários detalhes omitidos pela obra. Mozart perdeu três de seus cinco filhos em tenra idade, o que explica parte de sua melancolia. Também teve pupilos, justamente porque tinha frequentes problemas financeiros e a vida de compositor, assim como hoje, não era fácil. Talvez tenha dado algumas lições para o ainda jovem Beethoven.
O Antonio Salieri da vida real não cumpriu castidade, casou-se e teve oito filhos com sua esposa. Tampouco tentou suicídio ou acabou num hospício. Podia ser um talento menor, mas não era bobo e, assim como Wolfgang Amadeus Mozart, viveu a vida; curiosamente, também entrando para a História.

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