Eu diria que minha maior contribuição musical foi uma participação no final da música "Fim de Tarde" da banda Vizinhos da Glória. Durante as gravações em 2002, solicitei que a melodia se repetisse algumas vezes para que eu acrescentasse algumas guitarras. Eu achava a canção muito boa para ser tão curta e sentia que realmente poderia melhorá-la. O resultado: http://youtu.be/h0IZ5SlL_bg
Na época, um dos integrantes admirou-se após a minha gravação: "Não consigo entender como conseguisse criar isso de cabeça". De fato, eram duas melodias de guitarra distintas que, juntas, encaixavam-se perfeitamente. Eu não conseguia explicar a ocorrência, eu apenas sabia que as melodias seriam complementares e assim se sucedeu. A inspiração, além de efêmera, costuma ser inexplicável.
Neste multi-premiado longa de Milos Forman, nos é mostrado o talento de Mozart, que inflama a inveja de outro compositor da época, Salieri, narrador da trama. No início do filme, é feita uma provocação: muitos conhecem Mozart, mas quem conhece Salieri? Esse questionamento é o pontapé inicial para a narrativa que brilhantemente se inicia; antes de o conhecermos, já há um fascínio sobre ele e esse sentimento é partilhado pelo narrador.
Mozart aparece inicialmente como um jovial e alegre compositor de 26 anos, cuja única preocupação parece ser correr atrás (literalmente) de sua futura esposa, a bela Constanze. Mas essa ilusão logo se desfaz, dono de um ego enorme e ciente de seu talento, temos a impressão que Mozart conhece desde cedo seu lugar de destaque na História. Carismático, cativa-nos desde o início; ao contrário de Salieri, que fica atormentado ao conhecer o gênio: "Pareceu-me que eu estava ouvindo a voz de Deus, mas por quê? Por que Deus escolheu uma criança obscena para ser seu instrumento?"
Rebelde, Amadeus parece não se importar com a opinião de seu autoritário pai; muda-se para Viena, deixando-o em Salzburgo, e se casa sem o seu consentimento. Impossível não me identificar com o compositor; obviamente não tenho seu talento, mas nosso ego é equiparável e o temperamento, coincidentemente, também.
Em uma carta, o jovem tenta se explicar: "Amado pai, recorda-se como você sempre me contou que Viena era a cidade dos músicos? Que conquistar este lugar é conquistar a Europa? Com minha esposa, eu posso fazer isso. Em breve, quando eu estiver bem de vida, você virá morar conosco e seremos muito felizes." Amadeus encontrara o amor, sua grande inspiração.
Gosto de uma cena que se inicia com Mozart compondo em uma sala, sobre uma mesa de sinuca, com música ao fundo. Ele é interrompido por Constanze, que vem chamá-lo para conversar com uma moça que oferecia seus serviços de doméstica gratuitamente (a mando secreto de Salieri). O pai discorda da condição de anonimato de quem a enviou e discute com Constanze. Mozart não interfere, volta para a sala, voltando a compor com a trilha sonora que magistralmente retorna.
É evidente que, para ele, a música era mais que um trabalho, era uma necessidade, uma válvula de escape. Mozart compunha porque precisava compor; Salieri amava a música e tinha grandes ambições, mas não era um compositor nato. Isso o enfurecia: "De agora em diante, Você (Deus) e eu seremos inimigos, porque Você escolheu como instrumento um garoto arrogante, desregrado e infantil, e me deu como recompensa apenas a habilidade de reconhecer a incarnação. Porque Você é injusto e mal, eu vou Te bloquear."
Interessante que Salieri tem uma relação dual com Amadeus: ao mesmo tempo que ele o odeia por não lhe parecer digno de tamanho talento, ele ama a sua música e esse parece ser o maior sentimento da narrativa. Por três momentos, Salieri é sincero quando seria perfeitamente compreensível que mentisse: quando Constanze lhe mostra secretamente composições inéditas do marido, Salieri confessa, atônito: "é miraculoso"; após um relativo fracasso de público, Mozart pergunta para Salieri o que ele achara de sua ópera e, hesitando brevemente, responde: "Eu achei maravilhoso", salvando a auto-estima do jovem prodígio; na noite anterior à morte de Mozart, Salieri confessa ao inimigo caído: "Nunca perderei nada que você escreva. Você é o melhor compositor conhecido por mim."
Trata-se claramente de uma ficção, há vários detalhes omitidos pela obra. Mozart perdeu três de seus cinco filhos em tenra idade, o que explica parte de sua melancolia. Também teve pupilos, justamente porque tinha frequentes problemas financeiros e a vida de compositor, assim como hoje, não era fácil. Talvez tenha dado algumas lições para o ainda jovem Beethoven.
O Antonio Salieri da vida real não cumpriu castidade, casou-se e teve oito filhos com sua esposa. Tampouco tentou suicídio ou acabou num hospício. Podia ser um talento menor, mas não era bobo e, assim como Wolfgang Amadeus Mozart, viveu a vida; curiosamente, também entrando para a História.
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