Quando me perguntam sobre que autor eu gosto, costumo responder Luis Fernando Veríssimo. Conheci-o ainda jovem, pré-adolescente, quando meu pai, assinante do jornal Folha de São Paulo, ganhou um exemplar com uma seleção do genial Comédias da Vida Privada. Li e reli a obra diversas vezes, num preparativo para o que seria a minha própria vida privada.
Recentemente fui presenteado pelo nova coletânia do meu grande inspirador, "Diálogos Impossíveis". Abaixo, um trecho da crônica "Reféns da palavra", publicada originalmente em 2009 nos jornais Estado de São Paulo e Zero Hora.
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"No seu livro Lessons of the Masters, George Steiner lembra que nem Sócrates nem Jesus Cristo, que ele chama de as duas figuras 'pivotais' da nossa civilização (de pivôs, como no basquete ou nos crimes passionais), deixaram qualquer coisa escrita. São mestres cujas lições sobreviveram no relato de outros, Platão no caso de Sócrates e os evangelistas no caso de Jesus. Não existe nem evidência de que os dois soubessem escrever. A única, enigmática referência da Bíblia a um Cristo escritor está em João 8:1-8, quando, indagado pelos fariseus sobre o destino da mulher flagrada em adultério, Jesus finge que não ouve e escreve algo no chão com o dedo – ninguém sabe o que ou em que língua. Existe até uma velha piada, que Steiner cita, sobre um acadêmico moderno comentando sobre o currículo de Jesus: 'Ótimo professor, mas não publicou.'
O legado literário de Sócrates, via Platão, é em forma de mitos, o de Jesus, em forma de parábolas. Dois meios de organização e transmissão oral de memória que a escrita diminui, transformando narrativa aberta em cânone e lição em dogma. Nos diálogos de Platão o pensamento vivo de Sócrates já se coagulou em filosofia, nos textos bíblicos a verdade poética de Cristo se petrificou em verdades sagradas, irrecorríveis. Mas o maior defeito da escrita seria o de ter sabotado a memória como guia, roubando a sua função civilizatória de 'mãe das musas' (...)"
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Mês passado me foi perguntado se eu costumava reler o que o escrevia no blog. Respondi que eventualmente, não sendo um costume; o meu principal objetivo era estar sempre escrevendo coisas novas, não me prendendo ao que já escrevi. Afinal de contas, o importante é publicar.
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