Na última viagem a Porto Alegre, tive o prazer da companhia do meu primo mais velho. Combinamos a carona no começo da semana e sexta pegamos a estrada. Ele morou os últimos anos lá e por isso eu senti que uma certa empolgação o acompanhava. Fomos direto para a Cidade Baixa, onde ele havia combinado de encontrar dois velhos amigos. Quando ele foi ao banheiro, eu fiz questão de comentar com seus parceiros:
"Estávamos vindo pela Freeway, quase chegando, quando começou a cair o mundo (fiz um sinal com as mãos indicando chuva). Aí eu comentei com o primo se ele queria mesmo ir para a Cidade Baixa com aquele temporal. Ele nem pensou muito, respondeu que eu poderia ir para o apartamento descansar, mas que antes era pra deixá-lo ali que depois ele dava um jeito de ir embora!" Nisso, os dois caíram na gargalhada, aquele diálogo era típico dele.
Interessante que eu já os conhecia, há cerca de quinze anos, eles estiveram em nossa casa em Garopaba, juntamente com meu primo e mais três amigos. Eu lembrava dos dois. Um deles se formou em Geologia e falou de meu pai, o que me proporcionou um bom sentimento de ser filho de alguém importante. Mais tarde, nosso primo mais novo e minha irmã se juntaram à mesa cada vez mais familiar.
No outro dia, almoçamos com nosso avô em um restaurante próximo ao hospital. Um reencontro agradável que deve ter lhe proporcionou um pouco de segurança. Ele não deveria temer ficar sozinho, sua ampla família estava junto para lhe apoiar. Em tempos de despedida, revemos alguns valores; semana passada, confessei para meu tio que eu havia começado a pensar seriamente em ter filhos, pois também precisaria ser cuidado quando senil. Ele, que há anos me motiva no assunto, concordou prontamente.
* * *
Atualmente as visitas à minha avó são restringidas a duas pessoas por turno. Tenho ido à tarde nos finais de semana, onde sempre encontro meu avô e outros familiares. Imagino que cada visita destas seja uma despedida, meu primo mais velho a viu depois de muitos anos no último sábado. Não faço questão de vê-la na UTI, de certa forma, minha despedida ocorreu no primeiro dia dela em Porto Alegre.
Chegamos 5:30 da manhã na Emergência onde, embora não seja permitido acompanhantes, pude ficar pelo óbvio estado de confusão da nova paciente. A enfermeira me perguntou do caso e eu, de maneira sucinta, passei-lhe as informações. Alguns minutos depois, ela estava no balcão central conversando com uma colega quando, apontando para mim, perguntou como se já soubesse a resposta: "Você é da área? (referindo-se à área da saúde)" "Sim, eu sou médico."
Eu havia dirigido a noite toda e, apesar de cansado, senti uma espécie de gratidão por poder desfrutar de mais aqueles momentos ao lado dela. Intuitivamente, eu já sabia que aquela seria a minha despedida. Cuidei para que ela ficasse confortável na poltrona, cobri-lhe os pés, tentei acalmá-la quando ela se movimentava ou falava. Penso que as pessoas ali presentes tiveram a impressão de que aquela senhora era muito amada e, sobre isso, jamais tive dúvidas.
Algumas horas depois, conheci a médica que aceitara interná-la. Um detalhe curioso é que ela é Nefrologista e minha avó não tinha nenhuma disfunção renal. O encontro ocorreu porque a paciente consultava com o colega de consultório dela, mas ele não internava pelo plano. Logo após nosso primeiro contato telefônico, comentei com meu tio que ela era bastante simpática e parecia realmente disposta a ajudar. Sua primeira conduta no hospital foi solicitar exames e pedir o parecer da Neurologista que, minutos depois, estava ali.
Dias como esse me fazem sentir orgulho de pertencer a essa classe profissional. Literalmente salvamos vidas, as duas colegas não salvaram apenas nossa avó, mas todos nós. Tenho a idéia de, algum dia, deixar um presente bacana para elas no hospital; claro que nada estará à altura do que foi feito, não há nada que pague isso. Mas gostaria que elas soubessem que me sinto renovado para um trabalho onde diariamente podemos fazer a diferença.
No final da manhã, acompanhei um exame neurológico que foi feito em outro prédio do complexo hospitalar. Uma das técnicas que faria o exame logo notou suas unhas bem feitas: "Ela é vaidosa, não?" "Muito." A outra perguntou se eu era o filho. "Não, sou o neto." Ela tentou entender: "Mas então você é filho da filha?" "Não, sou o filho do meio do filho mais velho" respondi sorrindo, explicando em seguida: "mas sou o único médico da família." Gosto de pensar que, naquele momento, eu deixei a minha segunda mãe orgulhosa.
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