domingo, 10 de junho de 2012

Nossa Pequena Vitória


No começo desta semana, minha primeira atividade laboral foi ir ao hospital da cidade. Lá, dou bom-dia para a enfermeira, coloco minha mochila no balcão da enfermaria e olho para o quarto ao lado, percebendo uma das camas vazias. "Cadê a minha paciente?" Ela me responde um pouco constrangida, fitando-me nos olhos: "Ela viajou..." Ao perceber meu espanto, ela complementa, abrindo um sorriso modesto, porém reconfortante: "... para o além."
Suspiro, sorrio discretamente e olho novamente para a cama vazia, desabafando em seguida: "Queria que ela estivesse aqui." Surpresa, ela comenta: "Mas o doutor mesmo disse que só iria interná-la para dar um último conforto." "É verdade, mas como no outro dia ela ainda estava viva, achei que isso poderia ficar se repetindo." Ela me entendia, era o que todos esperavam apesar das circunstâncias. 
Minha paciente tinha cento e um anos de idade, internei-a na quarta-feira retrasada com um quadro típico de pneumonia. Ela chegara no meu consultório trazida pela nora em uma cadeira de rodas, com falta de ar e ansiosa. Há três meses não caminhava e vinha emagrecendo, estando bastante debilitada. No hospital, quando a enfermeira tentou colocar o cateter nasal de oxigênio, ela se agitou e disse as únicas palavras claras que eu ouvi dela: "Eu quero morrer." 
No outro dia, embora meu expediente seja oficialmente no posto de saúde, fui primeiramente ao hospital, esperando pelo pior. Mas ela não só estava viva como tranquila e sem mais falta de ar. Na sexta-feira, a mesma coisa pela manhã. Viajei realmente satisfeito por poder compartilhar a vitória da paciente e da sua família. Tive um ótimo final de semana, a má notícia veio somente esta semana.
"Ela nos avisou na sexta-feira, disse que sabia que ia morrer" continuou a enfermeira, "claro que a gente disse que não, mas...". O fato dela saber que estava partindo me trouxe um alívio que deve ter sido compartilhado por todos. Ela foi em paz, era hora de descansar, enfim.

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