domingo, 13 de janeiro de 2013

O Meu Brasil


De vez em quando, perguntam-me se eu não tenho vontade de ir para o exterior, seja a passeio, estudo ou trabalho. Não tenho. Gosto de pensar que não nasci aqui por acaso, que tenho uma missão a desempenhar em solo brasileiro e que qualquer saída, mesmo que temporária, seria um desperdício de tempo e energia.
Viajo com frequência para visitar familiares e amigos, encontro boas energias em Garopaba, São Francisco do Sul e Florianópolis, embora esta última tem perdido o encanto com o seu trânsito cada vez mais caótico. Ano passado, fiquei maravilhado ao conhecer a beleza do Rio de Janeiro e a culinária dos bares da Vila Madalena, na capital paulista.
Catarinense, encontro beleza nas paisagens de todo o estado e com satisfação resido na "Europa Brasileira", onde acredito ter a melhor qualidade de vida possível. Há alguns meses, voltando de uma viagem do Rio Grande do Sul com a minha irmã, também criciumense, brinquei após cruzar a divisa: "Finalmente em Santa Catarina, dá vontade de encostar o carro e beijar essa terra sagrada!"
Não costumo escrever sobre minhas falhas, mas comentarei dois episódios ocorridos há alguns meses comigo. Tenho postergado essa postagem por semanas, mas dizem que as coisas boas devem ser compartilhadas e é o mínimo que devo fazer, visto a minha notável sorte.

* * *

Dirigia por uma rua tranquila de Joinville, rumo à BR-101, quando num cruzamento eu não vejo a placa de "Pare". Diminuo a velocidade ao perceber um carro vindo pela esquerda, que também desacerela; pressumindo que a preferencial é minha, sigo em frente, não vendo o carro que vinha pela direita. Ainda consigo frear, mas não o suficiente para impedir o impacto na lateral do outro veículo.
Meu carro fica com apenas alguns arranhões, mas o estrago no outro é considerável. A motorista é funcionária de um restaurante e fazia uma entrega, ela chama o proprietário do veículo que estava no estabelecimento perto dali. Quando ele chega, ao perceber meu nervosismo, tenta me tranquilizar: "Não se preocupe, acontece. O importante é que ninguém se machucou."
Ligo para a minha seguradora que informa da necessidade de fazer um boletim de ocorrência. Chego a questionar isso (havia tido um incidente similar em 2011, quando não foi feito o BO e mesmo assim o reparo foi feito), mas a atendente me informa que agora o procedimento é obrigatório. Vou com a motorista para a delegacia, ela permanece calma o tempo todo e sorri com frequência, tentando amenizar a incômoda situação.
Como é comum ocorrer, ela fica surpresa ao descobrir que sou médico (talvez pela minha aparência jovem, talvez por estar vestindo bermuda e camiseta). Ela comenta que se sentia mal só de entrar em um hospital, não entendendo como nós conseguíamos trabalhar ali diariamente. Confesso que também não gostava desse tipo de ambiente, mas que após 6 anos de faculdade a gente se acostumava. Então ela me lembra com um sorriso: "Mas precisa ter um dom...". Verdade, mais uma gentileza dela.
Depois de irmos a delegacia, despedimo-nos e sigo viagem, não tendo mais contato com eles. Pessoas realmente especiais que perdoaram meu erro prontamente. A propaganda é gratuita: o restaurante é o Papinha da Vovó, recomendo!

* * *

Voltava de Criciúma e parei num posto em Lages, como de costume. Como a fila para abastecer estava formada, decidi abastecer na próxima cidade, distante alguns quilômetros dali. Mas nesta cidade, os três postos estavam inoperantes por falta de energia elétrica. De olho na tela de autonomia, calculei que poderia chegar ainda na próxima cidade e assim o fiz.
Lá, entendi o porquê da falta de energia. A cidade havia sido destruída por uma chuva de granizo: casas destelhadas, árvores enormes caídas sobre a BR-116, uma camada grossa de gelo se arrastava embaixo do carro que se movia lentamente. Ao chegar no único posto da cidade, percebo que seu teto caíra parcialmente, apoiando-se num caminhão que estacionara ali. Obviamente, estavam sem atendimento.
Numa última tentativa, sigo em frente e consigo chegar a outro posto, mas que também estava sem energia. Pergunto para o atendente se não havia 1 ou 2 litros disponíveis para chegar até o próximo estabelecimento e ele responde que não. Como não queria arriscar ficar sem gasolina, decidi aproveitar o hotel que ficava ali e esperar a energia voltar. Mesmo que demorasse até o próximo dia.
Após uma hora no hotel, batem à minha porta. É o atendente do posto me informando que não havia previsão para voltar a energia, mas que ele poderia emprestar seu carro para eu ir até o próximo posto, distante 10km, para pegar a gasolina. Surpreso com a gentileza, pergunto se ele não poderia fazer a corrida e eu lhe pagar, ficando assim combinado.
Ao descer para acertar a diária, que era baratíssima, a recepcionista diz que não custava nada. Insisto, dizendo que utilizara a cama e o banheiro, mas ela aceita apenas parte do pagamento. Aproveito para tomar um café e comer um salgado, grato mais uma vez por encontrar pessoas boas, dispostas a ajudar um desconhecido em apuros.

* * *

Finalizo este texto no hospital, em meio a um plantão de 62 horas. Há alguns dias me ligaram dizendo que não havia plantonista para o final de semana e, apesar de estar em férias (ou melhor, justamente por estar descansado e bem-humorado), aceitei o desafio. É a minha chance de retribuir tudo que aconteceu e continua acontecendo comigo neste belo lugar. Sem dúvida, o meu lugar.

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