quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Eudaimonia

Continuando a palestra de Clóvis de Barros Filho, é lembrada a filosofia de Aristóteles:

"Você pega uma muda de uma planta, você espeta no solo; se a vida der certo, aquela planta se torna uma grande árvore, ela atinge o máximo de si mesma. Assim, cada um de nós também deve buscar a excelência, porque a excelência é condição da felicidade. A felicidade que os gregos denominavam 'eudaimonia'. A felicidade que é o que você sente quando devolve ao mundo aquele investimento que o mundo lhe deu em talentos e habilidades, devolve em forma de expertise, em forma de competência, em forma de performance brilhante. Então você é feliz, porque você vai o mais longe possível naquilo que poderia ir."

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Após a formatura recente de minha prima no Rio Grande do Sul, voltávamos para o norte catarinense quando a namorada de meu primo, estudante de Fisioterapia, perguntou-me sobre o trabalho de plantonista em emergências. Respondi que fazia poucos plantões, ultimamente um a cada quinze dias; mas agora, diferente dos anos anteriores, eu já vislumbrava a possibilidade de fazer plantões até me aposentar.
Expliquei a hieraquia médica básica do hospital universitário: primeiro havia o "staff", responsável máximo da emergência, abaixo dele havia os residentes e, na base, os estagiários. Comentei então que, onde eu faço plantões, são dois médicos por turno e geralmente meu colega está formado a menos tempo, fazendo com que eu me tornasse o staff da noite; apesar da maior responsabilidade, era como se eu tivesse alcançado o topo.

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No último plantão, ao notar o símbolo da UFSC em meu jaleco, meu colega não escondeu a admiração; ao saber que eu completaria oito anos de formado, também reagiu positivamente: "Quantos anos você tem?!"  "Trinta e um. Consegui entrar logo após sair do colégio." "CDF." Ele perguntou se eu já tinha jantando, respondi que não; como ele já tinha ido, sugeriu que eu fosse. Resolvi ir após liberar um paciente.
Nesse meio tempo, notei que uma mãe estava impaciente e resolvi atender seu filho de colo. Depois atendi uma mulher que havia engasgado com um espinho de peixe, ainda no consultório, pude visualizar a ponta do espinho no fundo da cavidade oral. Fomos para a sala de procedimento, mas ela estava ocupada por uma menina de sete anos que aguardava sutura. Na sala de gesso, com a lanterna improvisada de meu celular, retirei o espinho e a mulher imediatamente se sentiu aliviada.
O recepcionista havia avisado da garota ferida, meu colega ficou responsável por fazer o procedimento, pois eu iria jantar; como ele estava ocupado com um paciente em agitação psicomotora (onde eu sugeri uma medicação que prontamente foi prescrita por ele), a jovem ficou esperando na sala de procedimento. Eu deveria ir jantar, mas ao ver aquela toalha ensanguentada no cotovelo dela, senti que aquele era um trabalho para mim.
Pedi para ver o corte, profundo e complexo. Posicionei-a, expliquei o que iria fazer; embora tenha chorado durante a anestesia, manteve-se imóvel. Durante a lavagem, percebemos que o bloqueio funcionara; onze pontos depois, o ferimento estava fechado. Como um artista que finaliza a sua obra, perguntei se a mãe gostaria de ver a sutura, a resposta foi sim. Acabei liberando mais um paciente que aguardava exames e, quando finalmente fui até a copa, já haviam recolhido o jantar.
A funcionária da limpeza pediu desculpas e me consolou informando que não havia sobrado muito da janta. Comentei que estava feliz de haver pão, queijo e presunto; logo, comecei a preparar um lanche. Eu estava orgulhoso do meu trabalho, confesso que sempre gostei da idéia de me sacrificar pelo próximo. Quando isso acontece, sou agraciado pela felicidade de ter ido o mais longe possível naquilo que poderia ir.

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