Não é fácil quando chega o dia das mães. De volta a Criciúma, apesar da felicidade da minha sogra em rever a filha, fica a tristeza por não poder ter esse mesmo tipo de encontro. Decido ir ao cemitério-parque no sábado, para evitar as aglomerações do dia seguinte.
Ao abastecer o carro, um dos funcionários do posto me oferece um vaso de violetas. Eu nego, mas ele insiste: “é cortesia, para sua mãe”. Não tenho coragem de explicar minha situação e aceito o brinde. Depois percebo que nunca havia dado flores para ela, sendo essa uma ótima oportunidade.
Conforme o esperado, o cemitério estava vazio. Ainda no carro, olho para as violetas e me lembro de como ela gostava de cuidar do nosso jardim. No entanto, ninguém cuidaria das violetas e elas morreriam em poucos dias estando ali. Deixo as flores no carro.
Logo após chegar à sua lápide, noto um homem de óculos escuros, cerca de 30 anos, que se dirige a uma lápide alguns metros a minha frente. Consigo ver que ele visita uma mulher, ele se agacha e toca a lápide com o rosto abaixado. É óbvio que estamos na mesma situação. Nesse momento, minha dor se torna insuportável e começo a chorar.
Viro-me para o lado e fico assim por um longo tempo, observando as árvores ao longe. Há pouco mais de 1 ano eu havia descoberto que ali era o local ideal para me comunicar com ela, mas nesse dia eu não tinha perguntas ou confissões, apenas um desabafo: “não é justo”.
Ao retornar à minha posição inicial, noto que o homem já havia ido embora. Percebo outra coincidência: nossas mães nasceram no mesmo ano, 1957, embora a minha tenha falecido em 1995 e a dele em 2008. “Como ele teve sorte”, penso com um pouco de inveja.
No carro, a caminho de casa, sinto-me aliviado. Não estava sozinho em minha tragédia.
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À noite, ao final de uma festa, converso com um velho amigo. Ele tinha uma relação conflituosa com a mãe e estava em dúvida se ia ou não até Florianópolis no domingo almoçar com ela. Sinto-me na obrigação de comentar: “Hoje fui ver minha mãe no cemitério, teria sido muito mais fácil ter ido até Floripa.”
Admirado com a minha sinceridade, ele responde que tentaria sim almoçar com ela. Era o que eu queria ouvir.
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No domingo, como de costume, vou almoçar com a família da minha namorada. Levo as violetas, explico como as ganhei e ofereço para minha sogra que, com um sorriso, as aceita. Então recordo que, certa vez, ao pedir desculpas por tê-la magoado, ela me respondeu: “tudo bem, mãe sempre perdoa.” Era o que eu precisava ouvir.
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Há cerca de 5 anos, enviei uma carta para um centro espírita de Palmelo-GO com o nome e a data de falecimento da minha mãe. Neste mês, veio a resposta. Uma única frase: “Volte a escrever.”
Que lindo! :~
ResponderExcluirNunca pare de escrever! Tu tens o dom. Eu me emociono sempre quando leio os teus textos!
ResponderExcluirTe amo muito!