quinta-feira, 5 de abril de 2012

A morte duas vezes em Março

Na primeira sexta-feira do mês passado, andava de carro com um grande amigo pela noite de Florianópolis, quando começamos a conversar sobre a morte.  Ambos nascemos em 1984 e temos várias semelhanças: tocamos guitarra, trilhamos um caminho profissional criativo e bem-sucedido, somos referências em nossas famílias; mas somos diferentes sobre a postura perante nosso infalível fim.
Acredito que devo viver todos os dias como se fosse o último, o que eventualmente será verdade. Fazer o possível, dizer o possível, viver intensamente e de acordo com meus desejos; em parte devo isso ao aprendizado de que posso morrer a qualquer momento. Afinal de contas, a vida é frágil, as pessoas morrem o tempo todo.
Meu amigo já tem uma visão menos romântica/idealista da nossa existência. Segundo ele, "se eu for morrer semana que vem, que diferença fará o que eu fizer até lá? Eu vou morrer, não importa!", fazendo uma referência ao hit da Pitty: "Não deixe nada pra depois, não deixe o tempo passar; não deixe nada pra semana que vem, porque semana que vem pode nem chegar." Para ele, a proximidade da morte não inspirava nada de positivo, sendo consequentemente um pensamento a ser evitado.
Paro para cruzar a avenida. Junto com o carro à minha direita, sou o primeiro da fila que começa a se formar. Ao ver a luz verde, começo a acelerar e instantes depois meu amigo berra. Instintivamente freio, percebendo então que um carro em altíssima velocidade cruza o sinal vermelho pela pista central da avenida. A colisão com a dianteira do meu Fiesta é inevitável.
Vejo o carro infrator seguir pela avenida e fito o asfalto em busca dos pedaços do meu carro, mas não os encontro. Dou-me conta, então, que a colisão fatal não ocorreu. Por poucos centímetros, com certeza. Os carros do cruzamento permanecem parados, com seus motoristas provavelmente atônitos como eu, que começo novamente a movimentar o carro. Dessa vez, conferindo a avenida antes.

* * *
No dia seguinte, tive aula na pós-graduação quinzenal que faço em Porto Belo. O professor da nova disciplina contou a seguinte história:
Logo após se formar em Psicologia, ele foi trabalhar em uma comunidade terapêutica (que abriga dependentes químicos em recuperação); um dia, um antigo "rival" de adolescência foi fazer tratamento lá. Era seu "inimigo mortal", embora nunca houvesse um real motivo para isso. Eram apenas duas lideranças dentro de um grupo, sem nunca terem se confrontado diretamente.
Após um breve sentimento de orgulho, por agora estarem em posições diferentes, começou a sentir um crescente desconforto, pois obrigatoriamente teria que fazer o acompanhamento individual de seu oponente. Após duas semanas "enrolando", finalmente fez a entrevista e começou um longo e produtivo trabalho terapêutico.
Durante muitos anos ele ficou sem saber notícias do ex-rival, até que, em uma aula de colégio, uma aluna perguntou se ele o conhecia. Surpreso, respondeu que sim, perguntando em seguida o porquê da pergunta. 
A aluna era sobrinha do ex-interno e, após sua morte, encontrou na sua bíblia uma foto dele com o nosso professor. Era uma foto de sua formatura (acredito que seja o evento que comemora um ano em abstinência, simbolizando o começo de uma nova fase).
Na pós, sempre que o professor contava um ocorrido, havia um ou outro comentário de algum colega lhe complementando a fala, mas dessa vez só houve silêncio. A história, bastante motivadora, falava por si só.

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