"Rousseau dirá que a felicidade do homem nada tem a ver com o resto da natureza, onde tudo é necessariamente do jeito que é. Na natureza, o vento venta do único jeito que poderia ventar, a maré também, o sapo também, a girafa também, a samambaia também... Mas no caso da vida do homem, a cada passo, ele escolhe, ele delibera, ele decide. A cada passo, ele faz a vida acontecer e decide jogar no lixo tantas outras vidas que escolheu não viver.
Portanto, diz Rousseau, a verdadeira felicidade é quando você acerta na tua escolha. A verdadeira felicidade pressupõe o uso adequado da liberdade, ninguém comemora mitoses e meioses dentro do próprio corpo, porque isso é inapelável, isso acontecerá de qualquer jeito. O homem comemora quando ele acerta tendo podido errar, quando ele triunfa tendo podido fracassar, quando ele ganha tendo podido perder; é aí que ele vibra." Clóvis de Barros Filho https://www.youtube.com/watch?v=q4E8g9L2PK4
Após dois meses sem fazer plantões em uma cidade vizinha, fui convidado pelo novo diretor clínico para retornar meus trabalhos ali; sendo ele um tradicional ortopedista da região, fiquei lisonjeado com o convite, prontamente aceito. Ao comentar isso com meu tio mais novo, cogitei a hipótese da equipe de enfermagem da UPA ter me recomendado e ele concordou com facilidade, como se a boa fama do sobrinho não lhe fosse surpresa alguma.
O caso mais tenso do retorno foi o de um menino de quatro anos que cortara profundamente a sola do pé, de lateral a lateral. Suspeitando de uma lesão tendinosa, entrei em contato com o sobreaviso da Ortopedia que, vendo as imagens pelo celular, rapidamente respondeu que estava a caminho. Após as enfermeiras conseguirem um acesso venoso, perguntei se havia Tramadol; havia, embora não soubessem a concentração das ampolas disponíveis.
Quando uma delas retornou com o medicamento, disse que só tinha a de 100mg/2ml; calculei a dose de cabeça, convicto: "Faz 0,3ml EV, diluído, lentamente." Aos poucos, o paciente foi se acalmando. Enquanto esperava o raio-x, meu colega plantonista apareceu, ficando impressionado com as fotos do corte: "Foi um tubarão?!" Ele explicou que havia ouvido os gritos desesperados do jovem, perguntando em seguida o que eu havia feito de analgesia.
Respondi, ele indagou se subcutâneo e informei que não, havia feito EV, 1mg por quilo. Imagino que a maioria dos médicos teriam receio de administrar um opióide intra-venoso em uma criança de quatro anos, mas era o que a situação demandava. A lição é antiga: durante uma aula prática do internato, o coordenador do curso de Medicina, cirurgião-pediátrico, nos apresentou um caso de tuberculose extra-pulmonar em uma jovem com cerca de 9 anos.
Eram necessários curativos diários em um ferimento profundo na perna, o professor explicou que havia prescrito um analgésico potente e chamou a atenção para a forma mais eficaz de administração: EV. Era preciso ter certeza que o medicamento estava na corrente sanguínea para garantir o alívio dos nossos pacientes. Anos depois, eu usaria o mesmo princípio em uma emergência pediátrica; anos depois, sob todos os riscos, eu triunfaria tendo podido fracassar.
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Outro caso marcante do longo retorno foi o de um senhor de meia-idade que caíra do teto de sua casa, apresentando um trauma na parte lateral do tórax. Ele aguardava respirando com dificuldade na frente do meu consultório, a ausculta pulmonar confirmou o pneumotórax direito; imediatamente encaminhei para a radiografia e, quando o reavaliei, ele já respirava normalmente, sem dor e com o semblante tranquilo. O raio-x estava normal, assim como a ausculta que, agora, indicava os dois pulmões funcionantes.
Um dos princípios que procuro usar na minha prática clínica é a de ser honesto com o paciente, seja na certeza, seja na dúvida: "Você estava com um problema grave, eu teria que ligar para o cirurgião colocar um dreno no seu tórax, você ficaria internado pelo menos três dias. Mas agora, inexplicavelmente, você está curado!" A mulher dele comentou que seu irmão tivera que usar esse dreno e que ela também achava que o mesmo aconteceria com seu marido, visto sua respiração ofegante.
Após liberar o paciente, encontrei o técnico do raio-x e logo lhe perguntei o que ele fizera. Ele riu, concordando que o senhor entrara dispnéico na sala e, após o exame, respirava melhor. "Foi você", acusei; ele se esquivou, culpando a radiação. Mais tarde, relatei para meu colega plantonista o feito do técnico, que acompanhou a conversa achando graça do meu entusiasmo; no fim, ele nos surpreendeu com a confissão: "Pior que teve uma vez em que eu realmente curei um paciente no raio-x."
Tratava-se de um idoso que engolira a prótese dentária, ficando com ela alojada no esôfago. A clínica cirúrgica recomendou o controle radiológico da peça e, durante o segundo exame, o paciente começou a ficar nauseado e expeliu a prótese! Chocado, complementei: "Se antes eu achava que você tinha o dom, agora eu tenho certeza!" Ao final do plantão, quando eu já ia embora, o recepcionista veio passando pela enfermaria e eu lhe informei, apontando para o técnico: "Se um dia você ficar doente, procure esse homem!"
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A teoria espírita nos diz que algumas pessoas possuem uma capacidade inata para a cura, que independe da vontade delas. Um bom exemplo está contido no Novo Testamento:
"Então, uma mulher, enferma com uma perda de sangue há doze anos, que muito sofrera nas mãos de vários médicos e que, tendo gasto todos os seus bens, não recebera nenhum alívio e se encontrava cada vez pior, tendo ouvido falar de Jesus, veio na multidão por trás e tocou as suas vestes, porque ela dizia: 'Se eu puder tocar somente as suas vestes, estarei curada.' No mesmo instante, a fonte do sangue que ela perdia secou e sentiu em seu corpo que estava curada dessa doença.
No mesmo instante, Jesus, conhecendo em si mesmo a virtude que dele saíra, retornou para o meio da multidão e disse: 'Quem tocou minhas vestes?' Seus discípulos lhe responderam: 'A multidão nos comprime de todos os lados e perguntas quem te tocou?' Ele olhava tudo ao seu redor para ver aquela que o tocara.
Essa mulher, que sabia o que se passara com ela, tomada de medo e pavor, veio se lançar aos seus pés e lhe declarou toda a verdade. Jesus lhe disse: 'Minha filha, a tua fé te salvou, vá em paz e seja curada da tua doença.' (São Marcos, cap. V, versículos de 25 e 34)
Essas palavras: 'Conhecendo em si mesmo a virtude que dele saíra', são significativas; elas exprimem o movimento fluídico que se operou de Jesus para a mulher enferma; ambos sentiram a ação que acabara de se produzir. É notável que o efeito não foi provocado por nenhum ato de vontade de Jesus; ele não fez nem magnetização e nem imposição das mãos. A irradiação fluídica normal bastou para operar a cura." A Gênese - Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo, cap. XV
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Embora as evidências apontem para o técnico radiologista como principal suspeito por operar o milagre do pneumotórax, gosto de pensar que eu tenha tido alguma participação no episódio. Pensando alto, concluo que, mais importante que poder salvar vidas, é escolher estar lá para tal. A verdadeira felicidade pressupõe o uso adequado da liberdade, ninguém comemora mitoses e meioses dentro do próprio corpo, porque isso é inapelável, isso acontecerá de qualquer jeito.
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