quarta-feira, 22 de maio de 2013

ER


Sendo a abreviatura de "emergency room", esta série norte-americana teve quinze temporadas produzidas entre 1994 e 2009, tendo um grande sucesso mundial. Mostra a rotina de uma emergência hospitalar de Chicago, que atende grande número de pessoas diariamente. Fez parte da minha adolescência e creio que tenha influenciado, de alguma forma, minha escolha profissional.
Atualmente estou fazendo plantões em "PAs" de três cidades catarinenses. "Pronto-Atendimento" seria um nome mais simpático para "Emergência-24h", tendo essa função: atender situações de emergências. Mês passado fiz 174 horas, uma média de 40h semanais, como um cargo de PSF em uma Unidade Básica de Saúde, porém com rotina muito mais estressante.
A série televisiva mostra a vida dos médicos repleta de tragédias. Um dos protagonistas é esfaqueado por um paciente esquizofrênico em surto; após sobreviver, vicia-se em opióides e é obrigado a se internar em uma clínica de reabilitação. Um cirurgião perde um braço no terraço do hospital, vítima de uma hélice de helicóptero; como não pode mais exercer seu trabalho, suicida-se. Outro protagonista desenvolve um tumor cerebral letal e por aí vai...
Assim como na ficção, não há glamour na vida real. A maioria dos médicos que conheço não querem fazer plantões, sendo essa uma "meta" comum entre nós. Semana passada, entraram em contato comigo cinco vezes para fazer plantões extras, parecendo-me que faltam médicos dispostos em cobrir o "interior" do país.
A estimativa do Conselho Federal de Medicina é que, pelo número populacional, não faltam médicos no Brasil. Mas eu acho interessente como aparentemente não há médicos desempregados e sobram vagas mesmo em grandes centros. Se nós não queremos determinados empregos e conseguimos outros melhores, não há mais vagas do que médicos? Independente da resposta, não me parece haver uma solução simples para o problema.
Atualmente houve a polêmica do governo federal querer "importar" seis mil médicos cubanos, sem a necessidade da prova de revalidação (que atualmente reprova mais de 90% dos candidatos formados na ilha). O CFM, como era de se esperar, posicionou-se contra, junto com a classe médica em geral. Mas o que me chamou a atenção foi a posição a favor de parte da população, numa postura claramente depreciativa em relação aos médicos brasileiros.
Um dos argumentos que encontrei em uma rede social foi a de que muitos médicos brasileiros que atuam no SUS são ruins, então a concorrência cubana selecionaria os melhores profissionais para ocupar esses cargos. São tantos amigos com essa opinião que comecei a pensar no que aconteceria caso milhares de médicos desembarcassem em solo brasileiro hoje.
Com alívio, imaginei que não precisaria mais fazer plantões e que, no mínimo, trabalharia menos sobrecarregado. Mas não seria a população que perderia? Se já há uma desconfiança sobre nós, não haveria ainda mais com alguém que fala outra língua, com outra cultura? A que custo se daria essa "seleção natural" dos melhores médicos, se é que ocorreria?
Chama-me a atenção um país pobre formar médicos em excesso de milhares. Segundo o CFM, a formação cubana é insuficiente e incompleta. "Não há médicos pela metade e é isso que está sendo proposto. Se o médico 'importado' sem revalidação receber um caso grave, cruzará os braços” disse recentemente o presidente do CFM, Roberto Luiz d'Avila.

* * *

No final de um plantão em uma cidade de dez mil habitantes, recebi uma senhora idosa que havia desenvolvido sintomas de um infarto agudo do miocárdio. Apesar do tratamento, ela não apresentara melhora clínica quando fui embora. Obviamente, fiquei arrasado; é bastante doloroso querer salvar uma pessoa e ver ela agonizar na sua frente, tendo pouco a fazer.
Alguns dias depois, voltei para um novo plantão no hospital municipal e encontrei uma enfermeira que era familiar da paciente infartada. Constrangido, perguntei o que havia acontecido com "nossa paciente" e ela me respondeu: "Faleceu naquele mesmo dia." Então comecei a explicar, tentando disfarçar a emoção, que havia tentado transferir a paciente, mas não conseguira; era de madrugada, não havia vaga de UTI no hospital de referência e meu colega não se mostrou disposto a recebê-la.
Ela me escutou sem conseguir olhar nos meus olhos, fixando o olhar para os papéis que manuseava quando cheguei. Ela não estava com raiva, simplesmente a lembrança do ocorrido era demais para conseguir me encarar, ela se esforçava para não chorar. Por fim, disse-me gentilmente que entendia que a situação era complicada e essa absolvição foi essencial para que eu aguentasse as próximas doze horas ali.

* * *

Mark Greene, personagem principal da série nas oito primeiras temporadas, decidiu subitamente que não iria mais trabalhar (seu tumor cerebral recidivara e agora não era mais operável). Ao se dirigir para seu armário, numa sala do hospital, uma colega (também veterana) pergunta quantos plantões deveria marcar para ele no próximo mês. Ele responde, enquanto sai de lá pela última vez: "Nunca deixe seu trabalho se transformar em sua vida. Viva um pouco."

* * *

Ontem, ao chegar de manhã cedo vindo do trabalho, deito na cama depois de um banho. Ela pergunta: "Como foi o plantão?" Sem tirar o travesseiro de cima dos olhos fechados, resmungo um "mais ou menos", complementando em seguida: "Estou velho demais para essas coisas."

3 comentários:

  1. http://www.youtube.com/watch?v=bzpAD0ij_UE&feature=youtube_gdata_player

    Sugiro a visualização do vídeo acima. Opinião muito bem exposta e realidade muito bem retratada.

    Propalar que a importação de 6.000 médicos cubanos resolverá os problemas da saúde no Brasil é o mesmo que afirmar que importando 6000 cozinheiros cubanos se resolverá o problema da fome em nosso país.
    Esse nosso Governo eleitoreiro e marqueteiro é uma piada...

    Nos dêem salários justos, equiparados a juízes e promotores, condições de trabalho dignas e estabilidade, que boa parte dos médicos da iniciativa privada migrarão para o SUS e desempenharão muito bem seu trabalho.
    Agora, com salários de telefonista, honorários de salão de beleza e falta de retaguarda (pode-se sentir claramente a sua angústia na situação de falta de UTI) NUNCA conseguirão atrair o número necessário de bons médicos para o serviço público...

    Não à MP da morte
    Não à medicina de pobre para pobre

    Abraços
    Marcos Pizzolatti

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    1. Interessante a comparação com o Direito, discurso muito coerente.
      Abraços!

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  2. Nunca vou me esquecer que quando éramos adolescentes, tu jantava ao meu lado na sala enquanto assistíamos ER, numa naturalidade absurda, enquanto aparecia uma vítima de acidente sendo operada. Com certeza tu já sabia que tinha o dom para a coisa. Parabéns por essa determinação que tens, através do teu conhecimento, em salvar vidas ou fazer o possível para que elas sejam salvas. O mundo precisa de mais médicos como tu. És um orgulho pra família e com certeza um diferencial para as pessoas que tem a oportunidade de serem atendidas por ti.

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