Semana retrasada, perguntei o que meu irmão achava deste filme e ele respondeu "abaixo da espectativa", visto o histórico do diretor David Fincher, que fizera os excelentes Seven (1995) e Clube da Luta (1999). Mas aqui há um diferencial, os crimes ocorreram de verdade; a trama é fruto de ampla pesquisa sobre o serial-killer que atuou nas décadas de 60 e 70 na região de San Francisco.
A sequência do segundo ataque é especialmente aterradora. Zodíaco aborda um jovem casal em um lago, num parque público distante da cidade. Vestindo uma roupa e máscara preta, com uma pistola em punho, ordena que ela amarre o namorado e tira uma corda de plástico presa à cintura, junto de outras cordas. Ela começa a chorar, era óbvio que aquilo não iria acabar bem.
Em seguida, Zodíaco a amarra, dizendo que era um fugitivo e que queria o carro e dinheiro. Após dominá-los completamente, com eles deitados de bruços um do lado do outro, ele guarda a pistola e tira uma faca curta presa ao corpo, desferindo 5 golpes rápidos no dorso dele. Mas sua principal presa era ela: repetidas facadas no dorso, virando-a em seguida, continuando com golpes rápidos em seu abdome, 8 facadas até a cena cortar abruptamente.
O diretor entrevistou pessoalmente o namorado da vítima que sobreviveu ao ataque, o que torna a cena mais brilhante. Apesar da vista paradisíaca do lago com montanhas ao fundo, o que se vê é o horror, dosado pelo corte no auge da violência.
"A abordagem do diretor foi criar um visual bastante mundano que o público iria aceitar que o que eles estavam vendo era a verdade. O cineasta também não queria glamourizar o assassino ou contar a história através dos olhos dele. 'Isso teria que transformar a história em um jogo de tiro em primeira pessoa. Nós não queremos fazer o tipo de filme que os serial killers gostariam de ter,' disse Fincher." Fonte: Wikipédia
Outra sequência que me é espetacular ocorre no primeiro encontro entre os 3 policiais que investigam o caso e o principal suspeito (claramente o assassino), numa sala vazia que fica no local de trabalho dele. Atuações soberbas sob uma direção precisa, um bom exemplar do talento norte-americano que, ao meu ver, é incomparável.
A minha decepção fica por conta do Zodíaco não levar em conta os signos astrológicos de suas vítimas, o que inicialmente achei que pudesse ter alguma relação com os crimes. Mas isso não é culpa do diretor ou roteirista, evidentemente; de certa forma, fico aliviado pela Astrologia não ter sido empregada num ritual macabro de "coleta humana".
Acredito que uma das lições da história seja a de que o sistema jurídico permite brechas para a impunidade, o principal suspeito foi descartado por reprovar nos exames de caligrafia e impressão digital, que ele poderia ter simplesmente forjado. As demais evidências foram ignoradas e ele, astuto, morreu em 1992 por causa natural.
Na Medicina, temos bastante influência dos EUA; meus melhores livros na faculdade eram traduções americanas, por exemplo. Imagino que no Direito ocorra processo similar; o desfecho de Zodíaco, além de um exemplo da fragilidade do sistema norte-americano, é um exemplo do que vemos em solo brasileiro.
Considerando o teor do post - como sempre carregado de perfeição no uso do vernáculo -, vou ter que ver novamente esta obra de David Fincher. Talvez pelo fato dela ter sido comentada por quem entende e traz nuances que, individualmente, podem passar despercebidas ou ser interpretadas de outra forma.
ResponderExcluirApesar de ser um filme longo e com final frustante, parece ser real, como era o objetivo do diretor. Para mim, isso faz diferença porque torna a experiência mais intensa.
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