Ao ler esse agradável romance de Taylor Caldwell, identifiquei-me facilmente com os dilemas enfrentados por Lucano há 2000 anos atrás, num mundo curiosamente parecido com o atual. Seu padrasto romano, que financiara sua cara formação, desejava que ele trabalhasse em Roma, mas Lucano tinha outros planos após formado:
"Tentei explicar; não há necessidade de mais um funcionário médico em Roma, que está cheia de hospitais modernos. Sim, compreendo que a Assembleia Pública me nomeou, graciosamente, por ordem de Diodoro, e com um estipêndio considerável. Mas um médico não deve ir para onde mais necessitam dele? Hipócrates disse isso, e eu jurei por ele. Meu trabalho será entre os pobres, os oprimidos, os abandonados, os moribundos, os desesperadamente doentes, para os quais não há assistência nas cidades que ficam ao longo do Grande Mar. Tratarei de escravos e dos que vivem em pobreza irremediável, e não pedirei pagamento, a não ser dos ricos senhores de escravos. Irei visitar as prisões e as galés, as minas e os cortiços, os portos e as enfermarias para indigentes. Esse é meu trabalho e não me posso desviar dele."
Meu pai ficou horrorizado quando eu lhe informei, ainda na faculdade, que pretendia trabalhar em "postos de saúde", com certeza não era o que ele esperava de seu filho do meio. Hoje ele aceita minha escolha, mas ainda deve temer pelo meu futuro. Eu também temo, eu também sei que este é um caminho difícil, mas emocionalmente é a minha única opção. Esse é meu trabalho e não me posso desviar dele.
Recentemente comecei a atender em uma Unidade Básica de Saúde localizada no interior de um pequeno município. Apesar de ir nessa unidade apenas uma tarde por semana, no final de um expediente, a enfermeira comentou que as pessoas estavam gostando de meu atendimento, pois eles estavam acostumados apenas com o "doutor" e eu era mais do que isso. Além de "doutor", eu demonstrava ser também uma pessoa.
Fiquei surpreso com palavras tão generosas, especialmente após aquela tarde onde, com bastante consultas, tive que atender apressadamente. No caminho de volta, lembrei de um senhor de meia-idade que acabara de atender ali. Ele se queixou de uma dor torácica que tinha desde um acidente de carro que sofrera há alguns anos, junto com sua esposa, que falecera. Imediatamente fiquei tocado com sua história.
Lembrei-me de meu pai, que também apresentou dores no tórax após acidente que vitimou minha mãe, provavelmente decorrentes do cinto de segurança. Perguntei para meu paciente sobre seus filhos e se ele tinha se casado novamente. Ele respondeu que não, comentei que ele era novo ainda e ele, esboçando um sorriso, concordou, dizendo que "pretendentes não faltavam".
Talvez um outro profissional teria apenas atendido a solicitação de fazer um raio-X, o que, na minha opinião, não o ajudaria. Fugindo um pouco do papel de médico, procurei fazer algo pelo o que me parecia ser seu principal problema: a perda da esposa. Demonstrando interesse por sua vida, deixei implícito que ele não deveria desistir de se relacionar com outra mulher.
Recordo-me de um paciente idoso que, elogiando minha postura, confessou que "tem médico que a gente vai e sai pior". Infelizmente, creio que isso seja uma ocorrência comum em nosso meio, sem haver necessariamente algum culpado. Talvez o mundo favoreça o adoecimento das pessoas e conspire para que elas sejam mal assistidas. Talvez sempre tenha sido assim.
Gosto de pensar que Santa Catarina é o melhor estado do melhor país da atualidade. Apesar disso, sinto-me frequentemente impotente perante a miséria que encontro diariamente, seja ela social ou espiritual. Às vezes, chego a acreditar que meu trabalho se transformou em uma mera "redução de danos", pois as pessoas continuarão sofrendo mesmo que eu lhes proporcione algum breve conforto.
Chico Xavier, no alto de sua grandeza, disse certa vez: "Sei que sou apenas uma formiguinha, daquelas bem pequenininhas. Mas é melhor ser uma formiguinha do que não ser nada." Em dias difíceis, devo ter em mente que é melhor ser apenas um médico de almas, daqueles bem pequenininhos, do que não ser nada. Assim como Lucano, não posso me desviar do meu caminho, por menor que ele possa parecer.
Sensacional. Pode ter certeza que tu não é apenas uma formiguinha. É muito mais
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